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Viagens e impressões

do Brasil no olhar

do  Conde D’Aurora

Aterramos às 15h35 (hora local) no Galeão, o campo a 14 quilómetros da cidade, no fundo da  baía do Guanabara e tomado às águas, em aterro, no início da extensíssima baixada fluminense, conquista ao mar de milhares de hectares de belo terro produtivo. (...) Vamos a Santa Teresa, ao apartamento dos Pintos, na calma da Rua Murtinho Nobre, uma rua sem saída, frente ao Guanabara e ao Pão-de-Açúcar, ao lado dos lindos jardins da Embaixada da Alemanha, tendo como primeiro plano os penachos dos coqueiros da Embaixada do Canadá.

AURORA, Conde d’, Brasil, Ida e Volta,

Porto, Liv. Simões Lopes, 1955, p. 21-22

Autor de interessantes memórias de viagem ao Brasil, o Conde d’Aurora, José de Sá Coutinho (1896-1969), foi magistrado e escritor, etnógrafo e roteirista, profundo defensor da cultura regional e apaixonado divulgador da sua amada terra minhota de Ponte de Lima, no Alto Minho. De facto, o autor do celebrado Roteiro da Ribeira Lima (Edição do Autor, 1929, 4ª ed., 1996) e da Monografia do Concelho de Ponte de Lima (1946), a par de contista e romancista, era reconhecidamente um homem culto e de horizontes cosmopolitas, viajado e dotado de consideráveis contactos. O seu romance O Pinto  foi distinguido com o Prémio Eça de Queiroz, em 1935.

Ponte Lima

Disso são prova eloquente as suas viagens e contactos, bem como as inúmeras visitas da sua Casa de Nossa Senhora da Aurora, em Ponte de Lima.  Como generoso anfitrião, recebeu ilustres figuras de intelectuais, escritores e artistas, como Luís Forjaz Trigueiros, Pedro Homem de Mello, Sebastião da Gama, Sophia de Mello Breyner, Ruben A., Margot Fontaine, entre outros.

 Uma dessas visitas, em 1951, foi o escritor e antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, o autor de Casa Grande & Senzala, então em Portugal a convite do governo de Oliveira Salazar. Aliás, outros nomes relevantes da cultura brasileira foram recebidos pelo Conde d’Aurora na sua casa de Ponte de Lima: o poeta Jorge de Lima, o filólogo Aurélio Buarque de Holanda, o escritor Alceu Araújo Lima (Tristão de Athayde) ou o historiador Luís da Câmara Cascudo. A todos José de Sá Coutinho proporcionava um banho cultural nas tradições limianas e minhotas do Norte de Portugal, reforçando dessa forte ligação fraterna com o Brasil. Destaquemos algumas passagens mais representativas dessa viagem cultural e suas correspondentes impressões, como a da chegada, a 6 de Agosto de 1954.

Ainda durante a escala no Recife, o autor soube do atentado contra o amigo Carlos Lacerda. De facto, uma das obras mais singulares do 3º Conde d’Aurora é um curioso livro de viagens, intitulado Brasil, Ida e Volta  – Porto, Liv. Simões Lopes, 1955, 109 págs., ilustrado com 40 fotografias do próprio, algumas das quais reproduzimos aqui. Essa pequena obra tem a particularidade de nos descrever a viagem efectuada pelo autor ao Brasil no mês de Agosto de 1954.

Com efeito, trabalhando no Porto como magistrado, José de Sá Coutinho é convidado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para, como escritor e homem de cultura, integrar uma missão de representação de Portugal no Congresso de Escritores de São Paulo – anfiteatro da Biblioteca Pública Municipal de São Paulo –, cidade já então com três milhões de habitantes. Congresso presidido por Paulo Duarte, tendo como vice-presidente Lygia Fagundes.

Nessa missão cultural, esteve acompanhado dos professores Costa Pimpão e Rodrigues Lapa; além dos escritores Miguel Torga (com a esposa, Crabbé Rocha) e Casais Monteiro; à última hora, faltou Hernâni Cidade. Ora, é desde logo notável a forma como este homem conservador se relaciona com todos, portugueses ou de outras nacionalidades, defendendo sempre os interesses e a imagem de Portugal, com frontalidade e convicção. Aliás, em matéria de política brasileira, o autor testemunha um momento de certa agitação social, com destaque para o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Compreensivelmente, um dos aspectos que mais fascina o viajante português é especialmente a rica e variada paisagem carioca.

Medito sobre estas construções de Santa Teresa, tão bem enquadradas na paisagem local, tão cheias de beleza e de harmonia, com aquele equilíbrio estético que os pintores ingleses denominam balance (...). / Jardins cuidados ao máximo, ao ponto de o Rio ter o melhor jardinista do Brasil: Roberto Burle-Marx.

Lindíssimas árvores: o cipó com vastas raízes aérias, caindo do alto como cordame de navio; a jáca e seu fruto agarrado ao tronco (...); a linda mimosa ou quaresma, roxa e amarela; a chorona, folha rendilhada e fina em vez da vergasta do nosso chorão; a mangueira tão folhuda e umbrosa, de sombra espessa; a murteira, de enorme folha recortada e longa; a amendoeira também de larga folha, como aquela gigantesca, humanamente grande apenas, perdão, a do Largo da França.

 

Brasil, Ida e Volta, p. 28

Santa Teresa

De forma cronística e a traço rápido, o Conde d’Aurora descreve-nos circunstâncias diversas da viagem ao Brasil, pintando as paisagens das cidades visitadas: Rio de Janeiro, São Paulo e Ouro Preto. Retrata rapidamente as inúmeras personalidades com quem contactou, descrevendo os acontecimentos em que tomou parte. De facto, plasmado num estilo narrativo e reflexivo marcado pela leveza, pelo humor frequente e por uma vigiada coloquialidade, quase diarística, é um enorme prazer ler este tipo de crónica de viagem, colorida e atenta e impressiva.

Lindíssima chegada ao aeroporto de Santos Dumont vendo todas as anfractuosidades do Guanabara. / À chegada ao Rio, vindo-se de São Paulo, sai-se ao mar da Tijuca e depois sobrevoam-se largamente todos aqueles lindíssimos morros a salpicarem de grandioso e verdura a maravilhosa baía. / Por entre essas massas imensas surgem, nos intervalos, muito ao fundo, lá onde quebram as ondas em orla de espuma branca, uns pequeninos aglomerados de habitações claras. / O Cristo do Corcovado domina toda aquela maravilha das enseadas e ilhas. / Minúscula, junto ao campo de aterragem, a Ilha Fiscal: último baile do Imperador. / Descemos em pleno coração da cidade.

 

Brasil, Ida e Volta, p. 62.

Os “apontamentos de viagem” por terras brasileiras mostram-se contagiantes pelo registo adoptado, por um lado; e por outro, pela capacidade descritiva dos lugares e das figuras com quem o ilustre viajante limiano se vai cruzando. Ou seja, vemos impressões de um certo Brasil, a partir do olhar de um homem superiormente culto e bem relacionado.

 Entre outros aspectos, revela-se muito interessante ver quem eram os autores mais consagrados ou populares no Brasil por esta altura, avultando figuras como Júlio Dantas. Não deixa de ser curiosa a breve troca de palavras com Torga, por ex., a par das impressões que nos vai apresentando de vários escritores e intelectuais de relevo: Lígia Fagundes Teles, Oswaldo de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Almeida Prado, Afrânio Coutinho, António Soares Amora, Wilson Martins, etc.

As ruas de São Paulo, de dia, são perigosíssimas para o peão: é a constante caçada do feroz automobilista a surgir-lhe por todos os lados, homicida, veloz. («Serva de betão sulcada de animais selvagens do feitio de veículos a motor» – «pior que a praça de toiros da nossa terra, com dois toiros à solta de cada vez» – como escrevi no Diário). Para o automobilista é outro horror: o moto-contínuo, pois não pode parar, nunca. / Pouca polícia nas ruas. Todos mulatos. Transitam de bicicleta.

Brasil, Ida e Volta, p. 44.

S. Paulo. Paisagem

(reprodução foto publicada no livro)

 

Em São Paulo, aterrando no aeroporto de Congonhas, fica hospedado no Hotel Comodoro – “todo o conforto – mas a penitenciária elegante do isolamento: só, em São Paulo. Que fazer?” As impressões paulistanas não são em geral muito positivas, desde a nova arquitectura até ao ritmo da cidade:

A auto-estrada com muita sinalização (...). / Paga-se nos Postos de Pedágio, construções atravessadas sobre a estrada. / Na pista mole junto à estrada circulam carrinhos de cavalos, cavaleiros indígenas e, num largo espaço, seguem-se postos ambulantes de vendedores de morangos, desde o de automóvel ao do carrinho de mão.

 

Brasil, Ida e Volta, p. 59-60.

Belo Horizonte. O centro bem ensombrado da cidade

(reprodução foto publicada no livro)

Cidade nova – de bicheiros em grande, de jogo casineiro e clandestino”. Na cidade de Belo Horizonte, o viajante demorar-se-á na admiração de vários aspectos da cidade da Pampulha – a singularidade da paisagem, as enormes avenidas, a conjugação do antigo e do moderno, com destaque para a moderna igreja de Niemeyer, com participação de Portinari:

E ao fundo da lagoa artificial, hoje cratera, ergue-se no sopé de um pequenino bosque de arvoredo fechado, a igreja modernista de Niemeyer, antes capelinha pelas dimensões, do feitio de uma cobra gorda e curta. À frente da torre (?) sineira, separada do corpo da capelas, é uma cópia de ripas de proteccção de arvorinhas contra gado e rapazio deformada em pirâmide invertida e truncada.

No interior, desafecto ao culto por determinação do prelado de Belo-Horizonte, o altar-mor é um vasto desenho típico de Portinari representando um Cristo com cara alvar de idiota e pés descalços a pedir calçado 56, pelo menos. / Do mesmo Portinari uma via-sacra de um infantilismo falso de pessoa grande.

Brasil, Ida e Volta, p. 83-84.

Belo Horizonte. Altar-mor da igreja da Pampulha / Exterior da igreja da Pampulha

(reprodução fotos publicadas no livro)

 

Outro traço saliente nesta crónica de viagem é o entusiasmo e o afecto com que o autor aprecia a diversidade da paisagem brasileira – natural, humana e arquitectónica, sem esquecer o património imaterial –, do Recife ao Rio de Janeiro e arredores (Petrópolis),

Petrópolis. Palácio da Princesa Isabel / Rio. Igreja do Rosário e arranha-céus

(reprodução foto publicada no livro)

de São Paulo às cidades históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto, passando ainda por Belo Horizonte.

Ouro Preto. Igreja do Carmo / Casa nobre

(reprodução foto publicada no livro)

Almoçar a correr e seguir para Ouro Preto num carro que me esperava, apalavrado. Estrada nova cortada nos grandes flancos vermelhos da Serra de Curral de el-Rei, ainda por empedrar. Paisagem desértica, quase. Aqui e além umas pequenas fazendas marcadas por arvoredo mais denso e canaviais. Na Serra, isoladas, grandes árvores de flor grande amarelo-mimosa. (...) / De repente, na distância, entre colinas, avista-se o casario brando de Ouro Preto.

Brasil, Ida e Volta, p. 75.

Ouro Preto. Ponte do Rosário ou de Caquende

(reprodução foto publicada no livro)

Nas suas preferências, destaca-se a natural e deslumbrante beleza do Rio de Janeiro, entre os muitos lugares visitados, como Petrópolis, sempre com as conhecidas preocupações ecológicas; e o património arquitectónico barroco e de influência minhota em Ouro Preto, a par das célebres esculturas do Aleijadinho.

Admirável passeio a Petrópolis. / Avenida Vargas. Passamos próximo do Galeão. / Começa a enorme Baixada Fluminense, apanhada em aterro à Baía do Guanabara, fertilíssima região de milhares de hectares. (...) / Subida da lindíssima serra de Petrópolis por entre arvoredo tropical. Lindas bananeiras de largas folhas. Frescura.

 

Brasil, Ida e Volta, p. 70.

Enriquecido por interessantíssimas fotografias, o autor de Brasil, Ida e Volta revela-se quer um cativante recriador de paisagens, de figuras e de atmosferas; quer um representante da cultura minhota e portuguesa em terras brasileiras, demonstrando, num continuado diálogo intercultural, uma relação entusiasmada e fraternal com o Brasil, sua História, suas paisagens e suas gentes.

José Cândido de Oliveira Martins