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A epígrafe acima foi retirada do conto “Abyssus abyssum”, pertencente à primeira parte do livro Os meus amores,  de José Francisco Trindade Coelho (1861-1908), escritor, magistrado e jornalista português. O trecho descreve o que podia ser avistado do quarto de dois meninos pequenos, que acabavam de ser despertados à força pela mãe. Era gente do campo, afeita ao trabalho e a hábitos simples, com horas certas de dormir e acordar. A paisagem que se via, com suas vinhas, laranjeiras, pomares, olmos e hortas, era em grande parte resultado do esforço contínuo e incansável dessa gente, que, no máximo, se permitia repousar à sombra das latadas, junto aos poços, no intervalo da merenda. Porém, os meninos Antônio e Manuel, mal despertos, não se sentiam atraídos para esses lugares de trabalho. Todos os seus olhares de crianças eram para o rio, elemento da natureza, que, lá embaixo, “corria sereno, esverdeado de águas”, mas estavam proibidos de se aproximarem dele.

Superando o medo do castigo de espancamento com que a mãe os ameaçava, os irmãos desceram ao rio, soltaram o barco de um vizinho e, ao navegarem, experimentaram o maior prazer de suas vidas. Vidas curtas, pois pouco depois seriam levados pela correnteza e tragados pelas águas que tanto os seduziam.

 Em outros contos, a evocação de Trás-os-Montes, onde Trindade Coelho viveu a sua infância, também se coloriu de tintas trágicas ou melancólicas, o que deu a Os meus amores um caráter enternecedor e comovente, provável causa de sua permanente popularidade. Como não se emocionar com o sofrimento atribuído à cabra Ruça, do conto “Mãe!”? A corajosa criatura, mesmo prenhe, subia aos mais acentuados penhascos e vencia com um salto os mais ameaçadores despenhadeiros. Em um desses lugares temerosos, longe da segurança do rebanho e da vigilância do pastor, Ruça deu à luz um filhote frágil, incapaz de acompanhá-la na imprescindível descida. Isolados em penhasco inacessível, ambos padeciam, sem esperança de socorro, nas madrugadas gélidas, e a mãe apavorava-se com a aproximação de lobos famintos. A morte era inevitável, assim como a da galinha do conto “A choca”, que, contaminada pela gosma,  via-se cada vez menos capaz de cuidar dos seus pintainhos, última ninhada de uma vida fértil, até finalmente ser abatida pela doença implacável.

Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas das noras,  latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.”

 

COELHO, J. F. Trindade.  Os meus amores.  Lisboa: Ulisseia;

Editorial Verbo, 2005.  p. 153.

 

Serra do Marão

Embora o autor pudesse ser arguido de sentimentalismo piegas, os animais antropomorfizados e as personagens de extração popular eram consentâneos ao “conto rústico”, categoria narrativa a que se filiaram Os meus amores, seguindo o caminho já palmilhado por Alexandre Herculano e Júlio Diniz. Publicado em julho de 1891, o livro de Trindade Coelho nada deveu, portanto, a Alberto de Oliveira, hábil prosador que, a partir de 1892, defenderia em jornais e revistas a necessidade de uma retomada das lições de Almeida Garrett em favor de uma literatura portuguesa inspirada em matrizes folclóricas, populares e regionais. Sem ciúmes, Trindade Coelho iria coerentemente juntar-se a Alberto de Oliveira e com ele combater a “onda triunfante de estrangeirismo” em Portugal e defender uma retomada das “tradições e costumes locais”. Fez isso com o auxílio de Alfredo da Cunha, com quem fundou em Lisboa a Revista Nova em novembro de 1893.

 Pode-se afirmar que o neogarrettismo  propugnado por Alberto de Oliveira, autor das Palavras loucas (1894), encontrou maior ressonância graças às consequências políticas do Ultimatum britânico (1890),  que feriu o orgulho patriótico de muitos portugueses. No caso de Trindade Coelho, porém, é provável que Os meus amores significassem para o autor uma nostálgica evocação da terra natal, a qual muito cedo deixara para ser interno em colégio do Porto e, depois, para ser acadêmico de Direito em Coimbra. Se com Os meus amores Trindade Coelho evocou sua infância transmontana, com as memórias de In illo tempore (1902) eternizou a sua juventude coimbrã. De todo modo, vivendo nos mais importantes centros urbanos portugueses (Porto, Coimbra e Lisboa) e, certamente, sofrendo os problemas típicos de cidades mais ou menos populosas, seria compreensível que viesse a idealizar o nordeste transmontano, como se vê logo no primeiro conto de Os meus amores, intitulado justamente “Idílio rústico”. Nele se representava a vida campesina a uma luz muito favorável:

Manhã de Verão, serena, tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de asas – passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação era mais rica de seiva e mais fácil a presa de insetos, perdizes gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos, viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de taleigos,  e berrando-lhes cada xó! que se ouvia na outra ladeira. Já nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a ave-marias. Nas quintas e casais fumegavam os tetos, dizendo horas de almoço. De modo que o Sol quando rompeu, solene e triunfante no céu imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada para a labuta interminável do dia.”

 

COELHO, J. F. Trindade.  Os meus amores.

Lisboa: Ulisseia; Editorial Verbo, 2005.  p. 46.

No trecho citado, o prosador sugeriu um paralelismo entre a agitação das aves, tantas e tão alegres, que saíam de seus ninhos em busca de um sustento fácil, e o movimento das pessoas que desde muito cedo labutavam no campo. O trabalho era muito, mas havia fartura: cuidava-se da vindima, levava-se o trigo ao moinho. Fazia-se tudo com ordem, pois as pessoas iam à igreja e as refeições ficam prontas a horas certas. Homens e animais, partes harmônicas da natureza, irmanavam-se em uma inconsciente celebração da vida.

Cócegas, tela de José Malhoa

Porém, em outro conto do livro, intitulado “A última dádiva”, a natureza, aparentemente pródiga e fecundada pelo trabalho, serve de enquadramento para um comovente drama familiar. Considere-se, primeiramente, a aguarela pintada por Trindade Coelho:

Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme, belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças, fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo,   comunicando com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis aí quanto ao pobre homem restava dos seus antigos haveres – o horto, a um canto a nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas janelitas laterais, mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.

De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia toda se toucava de flores fazendo dossel à vivenda, aquele pequeno canto de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a feição ingênua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua simplicidade.

No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.”

COELHO, J. F. Trindade.  Os meus amores.

Lisboa: Ulisseia; Editorial Verbo, 2005.  p. 72-3.

Desembarcaram num largo. Era o ponto mais central da terra – “a praça”. Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, com casas em volta – o que na vila havia de melhor em construções. Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de ferro ao meio e uma argola pendente do anel. A coluna que se elevava sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num grande X de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do X, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo, sem gosto, sem cal. Algumas pedras de armas em velhas paredes decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia tristeza com as suas ameias derrocadas e as grossas paredes em ruínas. Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio, de uma arquitetura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas sete: aquele “estafermo” é que não andava nunca direito. De dia ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado, ora adiantado, dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava o Sol.

Eram as sete. Àquela hora é que os “figuros” da terra, quase tudo empregados públicos, vinham para o largo, à fresca.

 

, J. F. Trindade.  Os meus amores.

Lisboa: Ulisseia; Editorial Verbo, 2005.  p. 102-3.

O horto “mimoso de frutas e hortaliças”, a exuberante magnólia, o poço generoso e o refrigério que, no verão, José Cosme experimentava em seu lar poderiam fazer considerar essa descrição como mais uma representação idealizada do campo. O narrador inclusive compara o lugar a uma “aguarela deliciosa, alegre e idílica”. No entanto, deve-se notar que o horto era pequeno, ainda que belo, e a habitação, “mísera casinhola”, constituía-se apenas de “uma porta e duas janelitas laterais”, ou seja, era muito pequena.

 Nesse lugar idílico, como se disse, transcorreria um drama. José Cosme, que já perdera a mulher e uma filha, seria obrigado a ver-se separado de seu único filho, que, em busca de trabalho, deveria partir para o Brasil, iniciando a viagem justamente no rio que ficava próximo à sua casa. O triste fato, oculto sob a amenidade da paisagem, era que o pequeno horto não podia proporcionar sustento para dois; era imperativo de sobrevivência, para o menino, tentar a sorte em outro país. O rio iria, como em “Abyssus abyssum”, tragar uma criança, mas dessa vez com a vaga promessa de trazê-la de volta um dia. Sabe-se que o sofrimento do camponês de “Última dádiva” era o de muitos pais portugueses, obrigados a enviar os filhos para fora do país, com poucas esperanças de tornar a vê-los. Considerando o caráter paradigmático do episódio, talvez não fosse excessivo ver no pequeno horto de José Cosme uma alegoria de Portugal, esse “jardim da Europa à beira-mar plantado”, intensamente cultivado, encantador em sua beleza, agradável por seu clima ameno, mas que, em sua longa história, muitas vezes não garantiu a conservação de todos os seus filhos, obrigando inapelavelmente parte deles ao exílio.

 No começo do século XX, Trindade Coelho iria produzir uma série de livros paradidáticos destinados ao ensino primário e também publicações de cunho político destinadas a contribuir para a formação cívica do cidadão português. Frequentemente arcou sozinho com os custos de impressão e distribuição dessas obras. Essa seria a principal floração do espírito combativo do autor já revelado por uma intensa colaboração na imprensa. Em Os meus amores, sua preocupação com o abandono das províncias portuguesas, especialmente do nordeste transmontano, insinuou-se sutilmente na forma por que representou Mogadouro, sua terra natal, em “Tipos da terra”:

A praça, a despeito de ser o principal logradouro da povoação, não passava de um “terreiro vasto, muito chato” em torno do qual se reuniria “o que na vila haveria de melhor em construções”. Porém, esse melhor ficava resumido a um conjunto de casas “triste, sem estilo, sem gosto, sem cal”. Algumas fachadas ostentavam velhas “pedras de armas”, mas as paredes onde se fixavam esses símbolos tradicionais da nobreza estavam “decrépitas, desequilibradas, hidrópicas”, isto é, estufadas, prestes a ruir. Não deveria, por isso, causar espanto a informação de que as aristocracias identificadas por tais brasões estivessem então “de todo extintas”.

 Monumentos de senhores poderosos que, em passado remoto, se fizeram respeitar, estavam mutilados e denegridos o pelourinho cristão no centro da praça e, no alto, o velho castelo de origem romana, “com as suas ameias derrocadas e as grossas paredes em ruínas”.

 Em sua velha torre, o relógio deveria servir de orientação segura para a vida comunitária, mas “não andava nunca direito”. Marcando as horas de forma caprichosamente disparatada em um mostruário de números apagados, o “estafermo” era o símbolo maior de um vilarejo que tinha parado no tempo.

No centro do largo, que, em sua decadência, simbolizava o atraso da terra, colocavam-se para tomar a “fresca” da noite, os maiorais do lugar, meros funcionários públicos, isto é, modestos cumpridores de ordens emanadas de outros centros. Não se deveria deles esperar nenhum movimento para a revitalização do vilarejo ou para a superação de suas mazelas.

Aspecto atual de Mogadouro

Como intelectual, Trindade Coelho não se limitou a constatar a decadência ou o abandono das províncias portuguesas ou a nostalgicamente evocar a terra de seu nascimento e a Coimbra de seus tempos de estudante de Direito. Ao contrário, tentou intervir na esfera pública com o seu trabalho de intelectual, produzindo manuais didáticos para a educação da infância, especialmente a desassistida, tentando preparar os cidadãos para a vida democrática e, em todas as frentes, sempre lutando por mais justiça. O seu suicídio em 1908 talvez significasse, da sua parte, a trágica constatação da inutilidade de todos os seus esforços, não obstante originados de um sentimento profundo pela terra portuguesa, tão visível em Os meus amores.

Notícia da publicação de Os meus amores no semanário ilustrado O Antônio Maria.

Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro