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Transportar-se no tempo

e espaço ao Portugal de Ruy Belo

Embora depois disso tanta coisa acontecesse

E tanta gente visse e terras conhecesse

De poucas coisas sei alguma coisa

Embora as principais observasse

Na aldeia deserta onde nasci

E penso em devolver à terra que me teve

Esta vida que por lha não pedir pedi

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p. 54.

(Fragmento do poema “Filologia-filosofia ou talvez la messe sur le monde

ou testamento a favor de uma entusiasta do campo”).

 

Ruy Belo é, sem dúvida, um poeta da imagem, do cotidiano, do tempo e do deslocamento no espaço. A junção desses aspectos em sua poética melancólica faz com que seus leitores possam visualizar imagens e paisagens atreladas às questões contemporâneas da sociedade portuguesa e, assim, abre o caminho para um movimento de “transportação” para o Portugal do poeta. Através da leitura de seus versos, somos capazes de traçar variados percursos no mapa português, passando pelas estradas, adentrando nos bondes das cidades, viajando de trem ou até mesmo caminhando pelas ruas ou pelas praias dos distritos portugueses na companhia do eu-lírico ora solitário, ora acompanhado por outros poetas.

 Damos início a essa jornada pelo país de Ruy Belo com a obra Transporte no tempo (1973), subdividida em dois conjuntos de poemas cujos títulos nos remetem a lugares por vezes facilmente encontrados na geografia portuguesa e comprovadamente presentes no roteiro biográfico do autor: o primeiro conjunto contém 12 poemas e é denominado “Monte Abraão” , enquanto o segundo, mais extenso, conta 48 poemas reunidos sob o título “Nau dos Corvos”. O poema “Enterro sob o sol”, primeiro do livro, já nos oferece um breve panorama do que há de vir:

ENTERRO SOB O SOL

Era a calma do mar naquele olhar

Ela era semelhante a uma manhã

teria a juventude de um mineral

Passeava por vezes pelas ruas

e as ruas uma a uma eram reais

Era o cume da esperança: eternizava

cada uma das coisas que tocava

Mas hoje é tudo como um fruto de setembro

ó meu jardim sujeito à invernia

A aurora da cólera desponta

já não sei da idade do amor

Só me resta colher as uvas do castigo

Sou um alucinado pela sede

Caminho pela areia dêem-me um

enterro sob o sol enterro de água

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p. 25.

O que nos é mais certeiro nos poemas de “Monte Abraão” é que, nesse conjunto, há uma série de menções às estações do ano, em especial ao outono e ao inverno – mas não somente a elas – funcionando como marcadores constantes de uma temporalidade em estado frequente de mudança. São as descrições climáticas e dos componentes da natureza que nos localizariam no quesito tempo dentro dos versos como em “ó meu jardim sujeito à invernia”,“O outono demora-se no mundo”, “Nesta manhã de outono dos primeiros fios”, “Desertar do céu deste inverno a andorinha”, “Mas que sei eu das folhas no outono”, dando um tom caracteristicamente outonal específico e relevante à visualidade, um dos traços essenciais da poética beliana.

 No poema que lemos integralmente acima, começamos a notar uma tímida movimentação de um sujeito poético que observa o seu entorno, que passeia pelas ruas e caminha pela areia do litoral, introduzindo traços fortes da constituição de boa parte dos poemas de “Monte Abraão”, que, embora não nos forneçam precisamente um lugar que pode ser mapeado, já nos alerta sobre como devemos prosseguir com nossa leitura: atentos ao espaço e ao tempo. Seguimos, portanto, para a seleção de poemas da obra que nos apresentarão algumas freguesias portuguesas e seus encantos.

 A subdivisão intitulada “Nau dos Corvos” traz poemas aparentemente mais interessados em nos situar espacialmente no país lusitano, mas sem deixar de lado as referências sazonais.  Começaremos pela “Breve sonata em sol [um] (menor, claro)”, um poema bem curto, mas que nos recepcionará com uma bela e típica imagem do verão no Alentejo.

BREVE SONATA EM SOL [UM] (MENOR, CLARO)

A solidão da árvore sozinha

no campo do verão alentejano

é só mais solitária do que a minha

e teima ali na terra todo o ano

quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia

e o calor é tão triste como o é somente a alegria

Eu passo e passo muito mais que o próprio dia

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p. 67

No verão, a tendência dos campos alentejanos é amarelarem-se, destacando o calor que se instala de junho a setembro, trazendo à luz a tonalidade dos tons terrosos e dourados:

Alentejo: Campo alentejano no verão

Pelo fato de Ruy Belo ser também um poeta de muitas e grandes referências artísticas, vale a pena nos demorarmos um pouco mais em seus versos e os conciliarmos com outras manifestações do campo das artes. Algumas breves sugestões podem nos ajudar a construir um clima bem interessante para a leitura desse poema.

 Olhemos para o título: o termo “sonata” tem sua origem do latim sonare e, em oposição à música cantada, era feita apenas para "soar", é a música instrumental. Com a indicação do título do poema que nos alerta quase obviamente que, em termos musicais, a escala diatônica a ser considerada é a menor, podemos construir mentalmente – ou  por que não buscar na internet uma forma de concretizar essa sugestão? – um cenário sinestésico para apreciar essa arte poética de uma forma diferente. Sendo a escala menor geralmente utilizada para a composição de músicas que soam de forma “mais triste” – sim, isso é cientificamente comprovado! – em uma poesia evidentemente melancólica, permeada, neste poema, pela solidão, a leitura dos versos acompanhada de uma canção instrumental, como uma trilha sonora, pode causar um impacto bem maior em determinados leitores. Agora com a visualidade proporcionada pelos versos de Ruy Belo e o reconhecimento da imagem do campo alentejano no verão, tente reler o poema em voz alta escutando a Sonata em Sol menor para violino, de Johann Sebastian Bach. Então, o que achou da experiência?

 Saindo do Alentejo, virando algumas páginas do Transporte no Tempo, poderemos viajar cerca de 500km para uma outra aldeia interiorana de Portugal chamada Rio de Onor. Não tão popular quanto a região alentejana, a aldeia, parte portuguesa parte espanhola, ainda conserva muitos hábitos tradicionais que auxiliam na conservação de uma geografia histórica e bem preservada no século XXI.

O poema de Ruy Belo que nos transporta a essa parte de Portugal chama-se “O girassol de Rio de Onor” e apresenta um sujeito poético em deslocamento que recupera suas lembranças acerca da aldeia portuguesa ao avistar um girassol na região espanhola de Andaluzia, onde jura ter visto um uma flor exatamente igual àquela que intitula o poema:

Existe um girassol em rio de onor

mais importante por exemplo para mim que seja lá quem for

Eu vi hoje na andaluzia o girassol de rio de onor

à beira de uma estrada pouco antes de chegar a fernan nuñez (...)

[...]

     Era o mesmo era ele sem tirar nem pôr

o girassol de rio de onor há tantos anos visto

Mas nós os que lá fomos e por lá passámos

nós é que já não somos quem lá fomos

e muito menos nós que somos vivos menos os mesmos somos

que tu ó meu amigo com as tuas

duas pernas pendentes lá da ponte sobre o rio

pequena ponte e diminuto rio

a dois passos dos olhos tão redondos que solares

dessas duas ou três quatro no máximo crianças

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p.103.

O sujeito poético apresenta uma relação de muita afinidade com o girassol, a quem chama de amigo, e, num gradativo procedimento de personificação do elemento da flora aldeã, diz-nos que “é fácil ter na flor um verdadeiro amigo/ se o não sabíeis antes desde agora que o sabeis”, relembrando, logo em seguida, como em uma fotografia, tempos passados naquele lugar.

Rio de Onor: Ponte romana e o rio

Não avistamos nenhum girassol na imagem acima, mas reconhecemos a ponte romana histórica e o rio pequenino, chamado Onor, como é possível inferir, envoltos a uma vegetação vibrante que juntos nos fazem compreender essa repentina e saudosa memória do sujeito lírico. A ponte romana, assim como outras construções tais quais a Igreja Matriz e algumas habitações, compõem a arquitetura tradicional constituída com um tipo de rocha chamada xisto, conferindo um caráter pitoresco à aldeia transmontana. Como foi mencionada no poema, a título de curiosidade, a região da Andaluzia é repleta de campos de girassóis, por isso talvez não seja de se estranhar que o eu lírico deste poema de Ruy Belo tenha encontrado um girassol exatamente igual ao de Rio de Onor.

Partimos! Imediatamente após o poema que recorda a aldeia portuguesa, seguimos viagem de volta, por aproximadamente 486km – segundo uma das rotas de automóvel traçada pelo Google Maps – para o Cabo Carvoeiro, situado no extremo da península de Peniche, no concelho de Peniche, Distrito de Leiria. Agora muita atenção onde se colocam os pés, pois a paisagem, além de tirar o fôlego, pode mexer com o espírito aventureiro do viajante. O Cabo Carvoeiro é um dos pontos mais ocidentais de Portugal e tem imenso valor paisagístico, principalmente para aqueles que, assim como Ruy Belo, atribuem um valor inestimável às paisagens litorâneas.

No poema “Nau dos Corvos”, nosso sujeito poético vai descrever a estrutura das falésias calcárias que compõem o belíssimo cenário costeiro do Cabo Carvoeiro em analogia a esse tipo de embarcação tradicional até o século XVII, tão significativa para a história de Portugal e que nomeia o referido poema – e em breve nos concederá mais uma curiosa referência. Leia o trecho a seguir:

Nau parada de pedra que tanto navega

e há tanto está no mar sem nunca a porto algum chegar

nau só a ocidente e todo o mar em frente

condensada insolência intemerato desafio

a mundos devassados mas desconhecidos

corvos de água e de vento aves feitas de tempo

que tão completamente são dois olhos côncavos

e fitos só nas coisas que importam verdadeiramente

nave que sulca não as águas mas os dias

navio de carreira entre o tempo e a eternidade

num espaço onde um simples segundo tem a minha idade

pedra que só aqui se liquefaz

água que só aqui solidifica

cais quente coração de corvos

vistos por quem nunca antes vira a solidão caber

em tão poucos centímetros quadrados

do mínimo de corpo necessário para a vida se afirmar

ó nau navio corvos pedras água cais 

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p.105-106.

Peniche: Vista afastada das falésias do Cabo Carvoeiro e um navio naufragado nas proximidades

Visto por um outro ângulo, a dimensão da grandeza e da beleza das falésias portuguesas toma proporções ainda maiores:

Peniche: Cabo Carvoeiro visto de cima.

Dando continuidade ao poema, o sujeito que observa o espaço circundante verifica a presença de aves e comenta a existência de um “anárquico aeroporto” de onde decolam – e aterrissam – corvos:

Os corvos são a pedra menos pétrea do cabo

é nos corvos que o mar deixa de ser marítimo

Nesta nau se efectua esse comércio secular

da terra feita pedra com a água mais doméstica do mar

A névoa envolve e como que enovela os corvos

a rocha é um buliçoso e anárquico aeroporto

donde em cada momento sai um corvo

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p.105-106.

É comum notar a presença de aves nessas regiões costeiras e a observação nos versos do poema de um “anárquico aeroporto” coloca em destaque um fato interessante sobre a costa de Peniche. A Associação de Produtores de Espécies Demersais do Açores (APEDA) publicou em 2015 uma pesquisa que une diversos especialistas em aves participantes do projeto Peniche Seabird Count, que se trata, na verdade, de um recenseamento de aves migratórias que em 4 meses contabilizou mais de 300 mil aves entre a costa de Peniche e as Berlengas (um arquipélago português a oeste do Cabo Carvoeiro). Os pesquisadores acreditam que Peniche possua as condições necessárias para ser um dos maiores centros mundiais de observação de aves, isso porque o Cabo Carvoeiro, nosso ponto turístico em questão, é o segundo ponto mais ocidental da Europa, sendo quase obrigatória a passagem das aves migratórias nessa localidade já que, em suas rotas, elas tendem a voar ao longo de toda a costa, de acordo com as informações do site “Pescazores”.

Peniche: Cabo Carvoeiro

Há um outro poema que vale a pena ser lembrado e que nos traz as ilustres presenças de Maria Teresa Belo, esposa de Ruy Belo, e de João Miguel Fernandes Jorge, poeta português com quem o casal mantinha uma sólida relação de amizade. E, já que paramos no Cabo Carvoeiro para apreciar a paisagem e as aves que por ali pairam, não será nenhum sacrifício entrar no restaurante “Nau dos Corvos” para um almoço em companhias tão célebres antes de encerrarmos esse roteiro.

 O aspecto bibliográfico em “Versos que vou escrevendo” emerge agora com mais força, pois o sujeito lírico se apresenta junto a pessoas que fazem parte da vida do poeta. Além disso, nota-se também a descrição do fazer poético neste ponto de Peniche, que principia pelo próprio título do poema. Um fragmento nos diz:

Mas como pode ser inverno aqui na praia

 perplexa perguntaste-me ó criança ainda vinda

não sei ao certo donde mas decerto não da vida

A praia que no verão tu conheceste

é calma é cor branca é céu azul é asa de ave

é tudo o que me falta agora porque então o tive

e ao ter alguma coisa só a tenho por correr o risco de a perder

Sou pato puro espaço para o sol que me soletra

um sol de inverno visto nalgum almoço ao joão miguel

no requintado restaurante nau dos corvos

onde apesar de não haver éramos três

bebido o vinho todo de uma das garrafas

nos deixaram pagar as garrafas vazias que trouxemos

com o rótulo impresso desse caro restaurante

vizinho dessa nau aonde os desprendidos corvos

levantam voo do mais sólido aeroporto assim fazendo

um reclame tremendo desse mesmo restaurante

E cá vou eu escrevendo os meus ligeiros versos só durante

a ida a pé do joão miguel e da maria teresa

ao morro aonde deve ser romântico morrer

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p.136.

Como já se pode notar, retornam as referências às estações do ano, às tonalidades de cores que podem compor as cenas poéticas, aos corvos e ao seu sólido aeroporto e, assim, a nossa pedregosa “nau mais náutica de todas essas naus” ganha mais um compartimento: um restaurante. O local “requintado” onde o sujeito poético – aqui poderemos até associar essa voz poética a do próprio Ruy Belo –, João Miguel e Maria Teresa vão almoçar encerra com chave de ouro nosso tour pela costa de Peniche.

Peniche: Restaurante Nau dos Corvos

O nome do restaurante, pode-se deduzir, une a metáfora concedida pela configuração geográfica das falésias aos seres biológicos migratórios que por ali planam constantemente. A visão panorâmica do estabelecimento, que fica localizado bem na extremidade do Cabo Carvoeiros, alcança além do arquipélago das Berlengas, a infinitude do oceano atlântico, oferecendo aos clientes que passam por ali cenários crepusculares formidáveis. (Observação para os apreciadores da boa gastronomia: O restaurante possui certificado de excelência pelo TripAdvisor, parece ser uma atração gastronômica obrigatória para os roteiros de viagem a Portugal!)

 Situado a oeste do Cabo Carvoeiro, o Arquipélago das Berlengas, já mencionado algumas vezes, também faz parte da paisagem do poema beliano e é lembrado com alguma recorrência no poema referido:

Ao longe um barco quase choca co’a berlenga grande

a ilha onde tu criança do início tu que em vez de laranjeiras

sempre falas das árvores aonde principiam as laranjas

que vês sempre figuras se vês fumo por exemplo algum domingo

e aves nos papéis queimados que levantam voo

tu que dessas Berlengas dizes ter gostado

dos barcos e dos goivos e das grutas

 

BELO, Ruy. Transporte no Tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014. p. 137.

Peniche: Arquipélago das Berlengas

É quase impossível não gostar dessas Berlengas, não é? Por isso não poderíamos deixá-las de fora. Agora sim, concluímos nossa leitura guiada em parte das terras lusas com o ponto mais alto e ocidental do nosso roteiro pelo Portugal de Transporte no Tempo junto a essa imagem convidativa do arquipélago que, vale a pena comentar, é reconhecido internacionalmente por sua classificação de Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO, enfatizando, mais uma vez, o valor da geografia portuguesa também como importante patrimônio natural.

 Finalizamos, portanto, o nosso passeio pelo interior e litoral do território português, adotando, como meio de transporte, os versos de alguns poemas de Ruy Belo. Enquanto isso, como bons viajantes que somos, encerramos essa jornada pensando e preparando o roteiro para a próxima. Até mais!