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As ruas do Rio de Janeiro oitocentista e a construção de sentidos  no conto “Pai contra mãe”, de

Machado de Assis

Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói.

 

(MACHADO DE ASSIS, “Pai contra mãe”)

O escritor Machado de Assis, nascido em 1839 e falecido em 1908, viveu toda a vida na cidade do Rio de Janeiro. Está no auge da sua maturidade quando publica o conto “Pai contra mãe”, na coletânea Relíquias da casa velha, em 1906. Um dos mais pungentes e bem realizados contos do autor, o que não é pouco dado o inegável valor estético de sua obra, sobretudo em prosa, essa obra-prima desenvolve a história de Cândido Neves, ou Candinho, homem branco e pobre que, em meados do século XIX, não tendo talento nem disposição para ofício mais sólido, vive de caçar escravos fugidos. A demanda do serviço, porém, cai na medida em que lhe aumenta a concorrência, catalisada pelo recrudescimento das carências econômicas da população da cidade (sem tantas ocupações remuneradas em uma sociedade escravagista) e a necessidade de outras pessoas sem opções melhores de sobrevivência recorrerem à vida de caçadores de recompensa, o que tem ápice quando Candinho mais precisa de recursos, por ocasião do nascimento do seu primeiro filho com a recém-esposa Clara. Eis que, diante do receio da impossibilidade de criar a criança em razão de os pais estarem, no fim da narrativa, sem recursos, vivendo de favor em um quarto nos fundos da cocheira da casa de uma senhora após despejados do imóvel em que residiam, a tia de Clara, Mônica, que também mora com eles, sugere que, ao nascer, o menino fosse levado à Roda dos Enjeitados, na Rua dos Barbonos.

Criada entre os séculos XV e XVI na Europa (acredita-se que na Itália) para coibir o infanticídio, a roda dos enjeitados ou dos expostos era uma estrutura (um cilindro oco de madeira com prateleira que era girado180o horizontal ou verticalmente por um impulso, o que fazia tocar uma campainha para chamar a atenção de alguém que recolhesse a criança do outro lado do muro) cuja mecânica permitia que pessoas anonimamente deixassem recém-nascidos, que seriam abandonados em lugares públicos (por isso chamados de expostos), aos cuidados de uma instituição filantrópica ou do Estado. A roda da cidade do Rio de Janeiro, adotada pela Santa Casa de Misericórdia, tem origem em 1738, esteve ativa por mais de dois séculos passando por diversos endereços até 1948 e, atualmente, encontra-se em exposição no Museu do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro . Ora, publicado já no início do século XX, tempo da voz do narrador, o enredo de “Pai contra mãe” desenvolve-se, segundo suas palavras, “há meio século”, o que nos encaminharia aproximadamente aos meados dos anos de 1850. Mas, dado que a roda dos injetados somente foi transferida para a Rua dos Barbonos em 1860 (lá ficando, curiosamente, até o ano de publicação desse conto de Machado), podemos concluir que, por coerência, a narrativa ocorre em algum momento desse ano em diante (mas, factualmente, apenas até 1870, quando a Rua dos

 Barbonos ganha o nome de Evaristo da Veiga, que se mantém até hoje) de modo que tomamos 1860, dos anos possíveis o mais próximo da expressão há meio século, como referência da geografia urbana da cidade.

A Rua dos  Barbonos, antiga Rua Nova dos Arcos, pode ser identificada na imagem do mapa extraído do interessante e bem executado Projeto ImagináRio em que identificamos parte do Centro do Rio de Janeiro em 1860. Tendo ligação com as Ruas das Marrecas e das Mangueiras (batismos que remetem a um espaço ainda bucólico), esse logradouro tinha um nome que advinha do fato de ali estar localizado o convento Nossa Senhora de Oliveira, ocupado por frades capuchinhos da Ordem Franciscana (os quais andavam sempre barbados, daí Barbonos) até 1808, quando foram desalojados para dar lugar aos Carmelitas. Mais tarde ocupado ainda pelos frades de Jesus da Terceira Ordem da Penitência, em 1831 o convento passou a abrigar o Corpo de Guardas Municipais Permanentes (posteriormente designado Corpo Militar de Polícia da Corte), tornando-se o famoso Quartel dos Barbonos, que hoje é o Quartel General da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, em edifício profundamente reformado na última década do século XIX – quando foi adquirido, para promover a sua ampliação, o prédio, que havia na mesma rua, da Santa Casa de Misericórdia, em que, lembremos, funcionava a Roda dos Expostos.

Rio de Janeiro em 1860: Rua dos Barbonos, Rua de Matacavalos e Passeio Público

A partir de Santa Teresa, vista do Aqueducto da Carioca (Arcos da Lapa) e da Rua dos Barbonos,

em foto de Geoges Leuzinger dos anos 1860, do acervo da Biblioteca Nacional Digital

Como um assunto puxa outro... uma curiosidade que não é possível ignorar quando tratamos da obra de Machado de Assis é que a Rua dos Barbonos ligava-se à longa Rua de Matacavalos, endereço que o autor escolhera para abrigar a casa em que viviam os personagens de Dom Casmurro: Bentinho – com sua mãe e outros familiares e o agregado – e, no mesmo terreno, a família pobre de Capitu. O nome “matacavalos”, aliás, surgira em razão de, nos primórdios (no tempo de Machado, ao contrário, já seria um logradouro sofisticado em que habitava a alta classe carioca), a rua atravessar um terreno alagadiço e muitos cavalos terem que ser sacrificados após se lesionarem em atoleiros ao tentar percorrê-la. Esse fato, aliás, faz lembrar que a cidade do Rio de Janeiro foi erguida sobre um terreno que originalmente é caracterizado pela presença larga de mangues e seu desenvolvimento exigiu diversos processos de drenagem e aterramento, incluindo de muitas lagoas (a famosa Lagoa Rodrigo de Freitas é uma das poucas que escapou). No mapa anterior, por exemplo, é possível observar o Passeio Público, o qual vem a ocupar o espaço do que antes era a Lagoa do Boqueirão, ligada diretamente ao oceano e que foi secada e aterrada no último quarto do século XVIII para a construção do parque, a fim de combater o potencial foco de peste que o charco representava e tornar a cidade mais salubre.

Vista da extinta Lagoa do Boqueirão e do Aqueduto de Santa Teresa

em tela de Leandro Joaquim de 1790

Mas parece que nos desviamos um pouco do assunto e talvez, parodiando o próprio Machado, deveria dizer, caro leitor, que escrevi um parágrafo inútil.  E daí, não... ele nos resume a atmosfera da cidade daquele tempo e representa um pedacinho do Rio pelo qual Machado pudera passear. Mas retomemos então “Pai contra mãe”. O trecho do conto que nos interessa narra o momento em que Cândido Neves, na noite em que levava o filho à Roda dos Expostos, oportunamente encontra uma escrava que há muito ele procurava e por que havia sido oferecida uma gratificação fabulosa de cem mil-réis, recompensa polpuda que lhe resolveria os problemas financeiros por algum tempo. O importante nesse momento é chamarmos a atenção para as ruas pelas quais a ação se desenvolve e verificarmos o significado que o nome de cada uma delas parece trazer para os sentidos do texto. O mesmo já acontecia, sob confissão da narração, com os nomes dos personagens: “O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço.” Podemos considerar então que as opções de trajeto do autor também não são aleatórias e relacionam-se com os nomes dessas ruas.

Rua da Guarda Velha, da Ajuda, do Parto, de São José, dos Ourives e da Alfândega em 1860

Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo.

– Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.

Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.

– Mas...

Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.

– Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.

Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

– Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!

– Siga! repetiu Cândido Neves.

– Me solte!

– Não quero demoras; siga!

Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes, – cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.

– Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.

Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.

– Aqui está a fujona, disse Cândido Neves.

– É ela mesma.

– Meu senhor!

– Anda, entra...

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.

O percurso portanto será a descida pela Rua da Guarda Velha em direção à Rua dos Barbonos, o desvio antecipado por um beco para a Rua da Ajuda, a subida de volta à Rua São José (continuação da Rua do Parto, referida antes como um dos locais em que Candinho havia procurado a escrava), a interrupção do percurso de Arminda que não mais desceria a São José para ser arrastada pela Rua dos Ourives por seis quarteirões e a chegada afinal à Rua da Alfândega. Esses são os logradouros que nos interessarão.

A Rua da Guarda, ainda que assim fosse conhecida em razão da necessidade de haver no século XVIII um posto da guarda municipal para organizar a fila de escravos que iam buscar água no Chafariz da Carioca e tivesse ganhado o adjetivo Velha após outros postos terem se instalado pela cidade, no contexto do conto parece ter outra conotação, com a expressão guarda velha remetendo a um serviço policial, a princípio, fora de uso na contemporaneidade da sua escrita mas que existia no tempo da narrativa, pré-abolição, e é relativo exatamente a esse ofício que Candinho extraoficialmente exerce de caçar escravos fugidos. Mas não se deve pensar que a obra machadiana encara de forma ingênua a complexa questão da abolição de 1888: muitas obras do autor, da ficção à crônica, poderiam atestar essa constatação.

Rua da Guarda Velha, em Xilogravura do Império Instituto Artístico do Rio de Janeiro publicada em 1878 na revista Ilustração Brasileira, dirigida por Henrique Fleuiss

O próprio conto, porém, o faz, ao iniciar com a descrição de aparelhos que teriam caído em desuso com o fim da escravidão, como o ferro ao pescoço ou a máscara de folha-de-flandres. “Mas não cuidemos de máscaras”, diz-se a certa altura, do que se subentende também que o conto não irá mascarar o assunto que se empenha em ilustrar. Trechos de explícita ironia demonstram o discurso, caricaturado pela emulação do narrador, de uma elite a quem não interessa compreender (como não raras vezes ocorre até hoje) o tamanho do sofrimento e da indignidade promovida pela escravidão, ao assim descrever os escravizados: “Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada.” – como se possível fosse gostar da escravidão ou de apanhar. Machado de Assis parece previamente contestar a tese que três décadas mais tarde Gilberto Freyre divulgaria em Casa-Grande & Senzala, que pintava um cenário em que senhores não eram tão maus e escravizados seriam mais dóceis à sua condição.

Atentemos ainda para a afirmação de que “eram muitos”: afirmam estudos atuais que a cidade no período colonial foi a que mais teve escravos no mundo, levando em conta mesmo as do tempo do Império Romano e, segundo o censo de 1872 promovido por D. Pedro II, da população brasileira da época (quase 10 milhões de pessoas), mais de 1,5 milhões eram escravos. Não poderia mesmo esse contexto gerar a partir de 1888 negros libertos sem grandes consequências sociais, com as quais, afinal, os poderes públicos fracassaram em lidar já desde a época. Daí que a descrição do percurso de Candinho comece estrategicamente nessa Rua da Guarda Velha, nome em que o narrador do início do século XX insiste apesar de sua voz pertencer a um tempo em que ela já fora rebatizada exatamente com a alcunha que enverga até hoje, Treze de Maio, em homenagem à Lei assinada pela Princesa Isabel. Essa omissão do narrador de uma informação que ele conhece (mas não usa, como é verdade acontece também com a Rua dos Barbonos) de modo algum deve ser vista como fortuita. Representa, para a vida dos ex-escravos oficiais, uma ausência mais efetiva de consequências oriundas da data que renomeou a rua, já que eles seguem submetidos a uma guarda velha que lhe persegue de modo semelhante até então (e mesmo até hoje, como de certa forma atestaria uma adaptação bastante livre do conto para o cinema em 2005: Quanto vale ou é por quilo?, de Sérgio Bianchi).

Machado de Assis na Missa Campal em que se celebrou a Abolição da Escravatura em 1888, com a Princesa Isabel ao centro, em pequeno fragmento ampliado de fotografia de Marc Ferrez

Sigamos por outras ruas do trajeto. A aparição no texto das ruas da Ajuda e do Parto referem-se às circunstâncias especulares que vivem Candinho e Arminda. Os dois partos descritos, eivados de potencial para o trágico, careceriam de algum auxílio para terem bom termo. A rua contígua a do Parto, no entanto, é a de São José, figura paterna emérita por se tratar do pai biológico de Jesus, indicando quem sairá vencedor desse embate de pai contra mãe, ao qual não parece mesmo ser possível que ambos sobrevivam. O fortuito ajuda Candinho a encontrar a escrava e a recompensa o permite continuar com o filho, que não será enjeitado; e não é casual que tenha sido nessa mesma Rua da Ajuda que ele recebera o auxílio do farmacêutico que, se antes lhe indicara como pista ter vendido qualquer onça de droga para uma mulata com as características que ele procurava, depois é quem abriga o seu filho enquanto ele captura Arminda. Esta, pelo contrário, precisaria do auxílio do próprio Candinho. Seria necessário que ele, apiedado da condição da mulher, deixasse que ela seguisse o caminho que pretendia, o de descer a de São José. Reparemos no mapa que, nesse caso, ela chegaria à Rua da Misericórdia (hoje definitivamente desaparecida, restando-lhe apenas pequeno trecho da ladeira que subia o Morro do Castelo, demolido em 1921) e, mais do isso, poderia alcançar o Largo da Misericórdia. A misericórdia de Candinho permitiria que Arminda chegasse a esse utopicamente simbólico lugar para o qual pretendia seguir sob sua frágil e fugidia liberdade. Assim, novamente aquilo que no conto não se conta é significativo: o que impede Arminda de seguir seu presumível caminho rumo à Rua da Misericórdia é precisamente a falta de misericórdia de Candinho, que, contrariando então o seu nome, não é nada cândido com ela, não demonstrando empatia pelo drama da escrava nem mesmo em razão daquilo que de seu próprio drama ali poderia refletir, respondendo-lhe rispidamente questionamentos que, quando tia Mônica fizera a ele mesmo, como o porquê de ter filho nas condições em que vivia, mereceram outras palavras mais flexíveis, outras desculpas mais razoáveis. E pensa ele ao fim do conto, isentando-se de culpa, a frase dura, fria, empedernida: “Nem todas as crianças vingam.”

Trecho restante da Ladeira da Misericórdia, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional por ser umas das ruas mães da cidade, em foto contemporânea em que se vê a preservação do calçamento original em pé de moleque

Por fim, devemos ressaltar, ainda que óbvias, as referências à Rua dos Ourives, não por acaso a que representa a parte mais longa do percurso de Candinho (o caminho ainda era extenso antes das obras que abriram as Avenidas Central, hoje Rio Branco, e Presidente Vargas), e à Rua da Alfândega, em que ele realiza a troca do serviço que pretende vender. A semântica desses nomes revela definitivamente uma Arminda tratada como mero artigo ou produto, corroborando a mentalidade da organização político-econômica da Colônia e do Império. O conto demonstra que, no contexto da Corte oitocentista do Rio de Janeiro, se havia (e evidentemente havia) uma diferença socialmente reconhecida entre ser um trabalhador livre e ser escravizado, ela tinha um valor prático menor do que se poderia supor, dado que as circunstâncias precárias e instáveis sob que aqueles viviam eram menos distantes do que se consideraria à primeira vista da já bárbara condição destes, que oficialmente eram apenas mercadoria.

Fragmento de Guia e Plano da Cidade do Rio de Janeiro de 1858, de A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, com os percursos do conto, do arquivo da Biblioteca Nacional Digital

O conto expõe uma sociedade em que a luta pela sobrevivência pode colocar os necessitados uns contra os outros. Arminda ainda busca negociar com Candinho, mas o fracasso da tentativa a leva a ter que lutar. Será em vão, como seu nome também indica: o radical arm- faz dela uma guerreira bélica, no entanto, seu final em gerúndio -inda indica uma ação que se estende indefinidamente, porque, ao contrário de Candinho, que ainda pode ter um momento de triunfo como aquele, a condição de Arminda a condena a uma constante e interminável luta sem trégua contra seus ferros aos pés e ao pescoço e sua máscara de folha-de-flandres. Trata-se de uma condição grotesca e cruel essa a que a escrava é submetida para que Cândido Neves possa manter seu filho junto a si, no entanto, como o próprio narrador já antecipara cinicamente em sua descrição dos instrumentos de tortura (aqui chamados “de ofício”) dos escravos, “a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e alguma vez o cruel”.

Marcelo Pacheco Soares