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Deambulando pela Lisboa de

Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto,

de Mário de Carvalho

Quanto à cor de Lisboa, de tons sempre variáveis com o fluir das estações e os caprichos dos sóis e das atmosferas, disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é.

 

CARVALHO, Mário de. Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. 3a ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1996 [1995], p. 17.

Indo ao encontro da teoria preconizada por Aristóteles, para quem a atividade poética surgia como o paradigma da produção e da construção, muitos críticos contemporâneos defendem que os universos criados na e pela literatura surgem indiretamente ancorados no universo factual, apenas o refletem ou imitam, constituindo uma transfiguração da realidade, não uma cópia. Michel Collot , poeta e filósofo, encara a paisagem como “o produto do encontro entre o mundo e um ponto de vista” (2013:18), sublinhando que qualquer paisagem comporta uma parte de imaginário, solicitando outros sentidos, para além da visão. Longe de permanecer estática, a paisagem participa da ação e da expressão dos sentimentos e das emoções das personagens e/ou do autor.

Nesta linha de pensamento, podemos constatar que Lisboa se institui como uma temática recorrente na obra de Mário de Carvalho, mas não apenas como um espaço territorial ou geográfico, onde vivem os lisboetas, por onde passeiam os turistas, ou por onde deambulam os transeuntes. A cidade figura, igualmente, como um espaço prodigioso ou metafórico, onde ocorrem fenómenos insólitos e anómalos, constituindo, por vezes, um ponto de partida para reflexões filosóficas sobre a História ou a sociedade.

Deambulemos, então, pela Lisboa de Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. O incipit remete para um (inventado) edifício e patenteia, ab initio, o tom irónico e paródico que presidirá à narração. À semelhança do narrador das aventuras do Quixote, que relega o nome do local da Mancha em que vive o famoso Cavaleiro, o narrador deste livro começa por exibir a sua ignorância relativamente à localização precisa da rua, “estreita e discreta”, onde foi construído o edifício supramencionado. Se tem ou não ancoragem geográfica no universo factual, caberá ao leitor descortiná-lo. Mas dela ressalta a proximidade de Entrecampos, uma zona central, onde existe uma importante linha ferroviária que serve a capital portuguesa.

Estação Ferroviária de Entrecampos-Poente (Lisboa)

Naquele lugar, há alguns anos, a implosão de um velho prédio de estilo dito de Munique deu lugar ao “controverso edifício” da Fundação Helmut Tchang Gomes, o que suscitou “indignações veementes”. Depois desta alusão, o narrador tece comentários à sua construção, evocando uma característica tipicamente portuguesa – a crítica mordaz a tudo o que é diferente e, paradoxalmente, a sua rápida aceitação: “Sempre que em Lisboa se constrói um prédio de estilo, com prosápia inovadora, cai Tróia, caem o Carmo e a Trindade, (…) e só o que não cai é o edifício em causa”. O edifício integra uma amálgama de estilos arquitetónicos, apresentados num discurso saturado de exemplos minuciosos, que bem evidenciam a erudição do autor:

Está representado o divino Imnhotep com a sua pirâmide de Sacara, Fídias com os frisos do Partenão, Vitrúvio com os seus criptopórticos, Mestre Afonso Domingues, com a abóbada da Batalha, a Bauhaus com as suas lisuras escorridas, Frank Loyd Wright com uma grande superfície vidrada, Niemeyer com uma esfera polida, e Raul Lino, com beirais próprios de andorinhas (…).

 

CARVALHO, Mário de. Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. 3a ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1996 [1995], p. 15.

Outra referência patente na obra remete para a definição do cineasta Alain Tanner, que imortalizou Lisboa como a cidade branca. Mais uma vez, pelo recurso à ironia e ao humor, que o autor considera como um dos grandes pilares da literatura, o narrador assegura que o cineasta a deve ter confundido com Évora ou com Campo Maior. Sublinha, então, o facto de as “pessoas comuns” se deixarem levar pelas declarações de gente prestigiada, mesmo quando esta se ilude por “impressões fugidias”. De seguida, convoca-se o testemunho do escritor português Alexandre Herculano, que, no século XIX, chamara à capital portuguesa “cidade de mármore e de granito”, não obstante a comprovada ausência de granito em Lisboa e seu termo e a confusão do mármore com a “humilde pedra lioz”. Esta pedra foi utilizada, por exemplo, na construção do Mosteiro dos Jerónimos, da Torre de Belém, ou no revestimento do Arco da Rua Augusta.

Arco da Rua Augusta (Lisboa)

O narrador assevera que Lisboa é multicolor, invocando espaços que permitem uma visão panorâmica e abrangente da cidade e, em tom irónico, afirma que se dispõe a declará-lo notarialmente:

Basta subir-se ao miradouro da Senhora do Monte, ali a S. Gens, ou ao terraço do Hotel Sheraton, ou àquele enorme edifício azul que fecha a Alameda D. Afonso Henriques nos altos da Barão de Sabrosa, (…) para poder verificar que a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosas-suaves, os verdes-esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista. Lá terá as suas brancuras aqui e além, mas estão preciosamente colocadas, para compor o todo.

 

CARVALHO, Mário de. Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. 3a ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1996 [1995], p. 17

Alameda D. Afonso Henriques (Lisboa)

No episódio a seguir apresentado, problematiza-se o papel da literatura, não já no que respeita à arquitetura, mas invocando-se temáticas negligenciadas ou relegadas pelos escritores, como os assaltos ocorridos em pleno dia em locais considerados seguros. O protagonista da história, Joel Strosse, foi assaltado na rua, exatamente às dezassete horas e trinta e dois minutos: “Estas ocorrências são muito vulgares, embora pouco retratadas pela nossa literatura. Habitualmente (…) esquecemo-nos de passar pelas ruas, com atenção penetrante, e deixar à posteridade uma nota de verismo”. Numa circunstância análoga, a focalização do narrador deter-se-á na personagem Jorge Matos, quando este passa pela avenida onde se encontra sediado o edifício central de um dos mais importantes bancos portugueses. O seu enquadramento paisagístico levava-o, habitualmente, a proferir “apóstrofes deselegantes”, pelo contraste que o faz destoar da arquitetura circundante:

Neste comenos, já passara além do edifício da Caixa Geral de Depósitos, que faz naquela área figura de cofre-forte tombado numa exposição de casinhas de bonecas e preparava-se para atravessar a João XXI e endireitar ao Bairro de S. Miguel, pela Augusto Gil.”

 

CARVALHO, Mário de. Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. 3a ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1996 [1995], p. 194.

Central da Caixa Geral de Depósitos (Lisboa) – Avenida João XXI

Entretanto uma idosa, atingida por uma moto, foi assaltada. Mais uma vez, pela voz do narrador, perpassa a crítica à falta de civismo dos lisboetas: aos transeuntes pouco importou o episódio. Apenas Jorge teve um gesto de solidariedade: estendeu-lhe o braço e ajudou-a a levantar-se. Depois, prontificou-se a acompanhá-la à polícia, mas a anciã declinou a ajuda e afastou-se, devagarinho, limpando as lágrimas, enquanto descia a Avenida de Roma, uma área privilegiada da cidade. A rapariga que comandara a operação e que conduzia a mota acabou por desaparecer, a grande velocidade, violando o sinal vermelho.

Outros exemplos atestam a ironia com que o narrador destaca comportamentos similares. Atentemos no episódio em que Vasco Reboredo coloca em risco a própria vida e a dos que transporta no Bentley . No percurso que faz até ao seu apartamento, ao Lumiar, não longe do Estádio do Sporting, dá boleia a Vitorino Nunes e a Jorge Matos. Este mostra-se deliciado com as acrobacias que o professor faz com a condução; já Vitorino desespera, sobressaltado, principalmente quando o condutor, exibindo-se, confessa, à entrada da Praça do Chile: “– Eu, às vezes, nos cruzamentos, nem páro. Fecho os olhos, acelero, e que se lixe!

O “perpétuo engarrafamento” da cidade, para além da poluição que provoca, serve de mote para se proceder a novas críticas comportamentais. A focalização omnisciente do narrador expõe, repetidamente, uma sociedade onde impera a agressividade. Quando Jorge Matos se dirige para o bar A Oficina, depara-se com uma “ranchada de gente”, reunida em volta de dois automóveis que haviam colidido, na Avenida da República. Os condutores vociferavam, rancorosos, e alguns dos circundantes estavam “tão esbaforidos” como se se tratasse de um assunto pessoal. Jorge sentiu-se envergonhado por ter sido apanhado naquele espetáculo, “tão tristemente lisboeta”, e foi-se afastando, em passo estugado, enquanto a sirene da polícia anunciava a sua chegada ao local.

Avenida da República (Lisboa)

A deambulação pela cidade representada na obra faz-nos deparar com outros episódios que servem de pretexto para se aflorar temáticas correlativas, que apontam para atitudes que ilustram a insegurança e a violência que grassa em Lisboa, muito embora seja tida como uma cidade segura e como uma espécie de “paraíso” para os estrangeiros. Ao referir-se o edifício Helmut, não é despicienda a crítica que subjaz à sua descrição arquitetónica: construiu-se uma escada que não leva a lado nenhum, e cuja finalidade se resume a ser vazadouro para seringas usadas e outros dejetos. Numa alusão à personagem Eduarda Galvão, refere-se que conhecia estaminés de gente suburbana onde, de madrugada, sempre havia cenas de pancadaria. Agora, ia a bares frequentados por clientela importante e de sucesso, sitos nas zonas mais concorridas da noite lisboeta: a Avenida 24 de julho e o Bairro Alto.

Bairro Alto (Lisboa)

Avenida 24 de julho, Lisboa

Atentemos num outro episódio risível e caricato, que tem como pano de fundo a zona ribeirinha. Bertrand L’Église, um aventureiro escafandrista parisiense, encontrava-se em Lisboa. Tinha como projeto atravessar todos os rios principais das cidades da Europa e, espantosamente, elaborara um raciocínio inaudito: os rios teriam um caudal proporcional à dimensão do país. Quando chegou ao cais da Ribeira, sentiu-se traído: “Apresentavam-se-lhe cinco ou seis quilómetros de águas grossas, tantos, que até podiam deixar de ser quilómetros para se transformar em milhas.”

Vista aérea da Avenida da Ribeira das Naus (Lisboa, 1952).

Por causa da cobertura da comunicação social, L’Église não desistiu da empresa. Instalou-se numa caravana, nas imediações da Torre de Belém, “local muito atraente para os visitantes de Lisboa”, e começou a fazer exercícios de preparação. No dia aprazado para a travessia, a polícia impediu-o, com muita rudeza. O escafandrista ameaçou a autoridade com o tribunal europeu, mas, no íntimo, “sentiu-se aliviado e gargalhante” por a burocracia e a repressão terem funcionado. Para manter as aparências, decidiu sentar-se ao lado da Torre, “naquela muralha que bordeja o rio”, e dar início a uma greve de fome.

Torre de Belém (Lisboa)

A obra em análise aborda, também, a problemática do Comunismo, que é bem visível no episódio que analisaremos. O quadro apresenta os comunistas Vitorino Nunes, “o controleiro”, “vivedor de rendimentos”, e Jorge Matos no apartamento de Vasco Reboredo, outrora militante do PCP. O espaço descrito aponta para uma sociedade submetida ao poder e à riqueza, representada por um ambiente sumptuoso, decorado com objetos de arte valiosos, de entre os quais sobressaem dois pianos de cauda. Ante a estupefação dos companheiros, o Reboredo declara: “Esta malta precisava toda era da puta duma ditadura do proletariado. Eu não aceito os compromissos com a burguesia…”  O fausto é, inclusive, aduzido pela menção à visão panorâmica da cidade que se vislumbra da ampla sala, no décimo segundo andar: “[A]s janelas largas (…) davam para o seminário dos Olivais e desenrolavam Lisboa, clara e escura, levantada, abaixada, enovelada e lisa, como um mapa trapalhão, com pontos de luz, a várias cores”. Entretanto, uma rajada de vento trouxe a chuva, e a cidade “esborratou-se nas cores e nas luzes”.

O Solar do Macedo, edifício (inventado) sito na Graça, aproximado à Rua das Beatas, apresenta-se como um espaço caricaturado, “uma tasca infecta”, onde se encontram os do partido, às quintas-feiras. A sordidez do solar acaba por surgir, metaforicamente, associada à decadência dos ideais dos comunistas que o frequentam: “Os bêbedos, escorraçados, iam filosofar para outro lado e davam lugar a uma clientela muito peculiar, que (…) depois de passada a porta (…) alijava também a gravidade e a compostura de classe média que eram seu ordinário.” Este lugar convoca a literatura realista e remete, de forma antitética e contrastiva, para o hotel Central da obra Os Maias, de Eça de Queiroz, espaço sofisticado, frequentado por gente pertencente a uma estirpe social elevada.

Central (Lisboa) – Gravura retirada da revista Archivo Pittoresco, nº 1 de 1860.

A inserção de referências geográficas permite ao leitor visualizar uma certa ancoragem dos espaços romanescos no universo factual. A voz do narrador faz-nos deambular por Lisboa, mostrando-nos zonas diversificadas da cidade e edifícios que sancionam o ecletismo arquitetónico e a coexistência – nem sempre de aceitação pacífica por parte dos lisboetas – de monumentos antigos e de edifícios contemporâneos, sendo estes muitas vezes contrastantes com a arquitetura dominante. De notar que muitos dos espaços retratados surgem como cenário ilustrativo de comportamentos desajustados e desviantes.

Apesar do tom aparentemente ligeiro e risível que predomina em Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, o romance institui-se, sobretudo, como uma crónica jocosa da vida portuguesa hodierna. No final, o quadro que subsiste é o do desencanto, de uma sociedade que “vai refluindo”, com tendência a piorar. A figuração da mítica cidade fundada por Ulisses, luminosa, colorida, encantadora, beijada pelo rio, a “urbe das urbes”, como o autor a denominará em A Arte de Morrer Longe, surge como o reflexo do país, medíocre e avassalador.

À semelhança do início da obra, que principia com um retrato arquitetónico da cidade, também o explicit a destaca, agora emoldurada pelo rio, e evoca a imagem das águas que fluem, metaforicamente associada à inexorabilidade do tempo: “E o Tejo continuou a correr, e os tempos a não haver meio de os parar.

Vista panorâmica de Lisboa

Natália Constâncio