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Conhecendo as grandes livrarias

do passado, no Rio de Janeiro,

pelas crônicas de

Luiz Edmundo

Em 1901 a livraria mais importante da cidade é a Livraria Garnier. Tem 55 anos de existência, pois vem de 1846, quando começa num modestíssimo lugar, (...).

Machado de Assis jamais falta ao ponto da Garnier, como ao da repartição onde trabalha. É figura regular, na livraria. Quando ele entra, rompendo a curva augusta da “Sublime Porta”, que outra não é senão a de arco monumental que dá ingresso à livraria, derrubam-se chapéus, arqueiam se espinhaços:

- Mestre!

E, logo, rostos de todos os lados, que se voltam para lhe ver a figurinha frágil, cerimoniosa e agitada, distribuindo cumprimentos, concertando mesuras, o chapéu entre os dedos, nos lábios o mais franco dos sorrisos. Fala em surdina, pondo  veludos na voz, revelando candura, bondade, timidez:

- Vai passando bem?

 

(EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro de meu tempo.

Rio de Janeiro: Editora Semente, 1984. ps.272)

No Rio de Janeiro do início do século passado, algumas livrarias eram verdadeiros points culturais, onde costumava se encontrar a nata da intelectualidade da época, como escritores de renome do porte de Machado de Assis e Olavo Bilac, assim como  juristas brilhantes, do naipe de Ruy Barbosa.

 Eles eram verdadeiras estrelas e muito populares naquela época – provavelmente muito mais se  compararmos proporcionalmente ao tamanho da população da época - e eram conhecidos, mesmo sem ter a internet para facilitar a sua identificação. Marcavam “ponto” em uma das famosas livrarias da época, a então conhecida Garnier, e quando apareciam por lá o burburinho era grande.

“(...) Sabe-se de quem vá a Garnier, como a uma feira de curiosidades, só para conhecer de visu os nossos autores. Os escritores de província, por exemplo, mal chegados ao Rio, antes de qualquer visita ao Jardim Zoológico, ao Museu da Boa-Vista ou à Galeria de figuras de cera do Pascoal Segreto, vão à grande livraria ver os grandes literatos.

 

(EDUMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro de meu tempo.

Rio de Janeiro: Editora Semente, 1984. p.271)

Placa publicitária da Livraria Garnier no endereço da Rua do Ouvidor, 71

O jornalista Luiz Edmundo, que foi o terceiro ocupante da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, nos fala em seu livro “O Rio de Janeiro do meu tempo” como era a Garnier e outras livrarias também famosas nos anos 1900 nas crônicas “Livros e livrarias” e “Outras livrarias da cidade”.

Nessas duas crônicas, ele traça um perfil da efervescência desses espaços no qual circulavam habitualmente grandes nomes da literatura nacional, que chegavam a dar autógrafos aos frequentadores, como podemos observar no saboroso diálogo transcrito na crônica “Livros e livrarias”, em que  é citado até o caixeiro principal da Garnier, sr. Jacinto.:

- O Sr. Jacinto, aquele senhor, acolá,  de nariz de tucano e ar triste, é o Sr. Machado de Assis?

-Não, minha senhora, aquele é o Sr. José Veríssimo, um crítico muito importante...

- Ah! E o de chapéu-de-palha, vesgo, que com ele conversa, é o Bilac?

- Perfeitamente, é o Bilac...

- Como o senhor seria amável se dele me conseguisse o autografozinho, num postal! – E arrancando a uma carteira de veludo seis postais com a efígie de Cléo de Merode, da Bela Otero e de outras artistas do Paris Plaisir:

- Ele que escolha, entre estes cartões, um e o assine. Claro que se ele escrever uma quadra ou um soneto, melhor será...O que vier, porém, serve, Sr. Jacinto, serve. O principal é a assinaturazinha, o autografozinho...É para minha coleção. Por favor...

 

(EDUMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro de meu tempo.

Rio de Janeiro: Editora Semente, 1984. p.275.)

O jornalista Luiz Edmundo, que também foi poeta, teatrólogo e orador, relembra no livro que, em 1901, a Livraria Garnier foi transferida para um novo espaço, muito mais amplo e melhor, num prédio  situado à Rua do Ouvidor, 71, no centro do Rio de Janeiro. A nova sede da Garnier foi descrita  por Edmundo como tendo ar “catedralesco”, por ser “alta, imponente, bela...”

      Interior da livraria Garnier já na Rua do Ouvidor. Na foto, podemos observar  algumas das 12 famosas cadeiras da marca Thonet, nas quais tinham acento figuras ilustres, como Machado de Assis. Foto do livro História das Livrarias Cariocas,

de Ubiratan Machado, Editora Edusp, 2012

Esse suntuoso ambiente atraía escritores de primeira grandeza à nova loja, onde foram espalhadas 12 cadeiras da marca Thonet. Segundo o autor de “O Rio de Janeiro do meu tempo” os acadêmicos monopolizam-nas. Tais assentos, porém, são retirados mais tarde – questão que, surpreendentemente, chega até aos jornais como nos conta Luiz Edmundo, pois a remoção dos 12 assentos provocou “zanga,  açulando mofinas nos jornais.”

 A Garnier atraía grupos de intelectuais de várias correntes e encontravam-se no lugar o que hoje consideramos a elite da literatura daquela época, conforme verificamos no fragmento retirado da crônica “Livros e livrarias”:

Vários são os grupos que na loja se formam, na hora de maior movimento, aí pelas 4, 5 e 6 da tarde. Há o grupo de Machado de Assis, com José Veríssimo, Sílvio Romero, Joaquim Nabuco, Rui (às vezes), Constâncio Alves, Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Coelho Neto (às vezes), Medeiros e Albuquerque, Araripe Júnior, Rodrigo Otávio, Mário de Alencar e Clóvis Bevilaqua, são os grossões da Academia (...). Há porem outros grupos que se espalham pelo interior da loja e onde pode a gente encontrar o Osório Duque Estrada, (...)

Outras importantes livrarias

Rua da Guarda Velha, em Xilogravura do Império Instituto Artístico do Rio de Janeiro publicada em 1878 na revista Ilustração Brasileira, dirigida por Henrique Fleuiss

Mas não era apenas a Garnier que atraía as atenções no início do século passado no Rio de Janeiro, a então capital da república. Situada também na mesma rua do Ouvidor, podia ser encontrada a livraria do Briguiet, também considerada uma das melhores da cidade. Segundo Luiz Edmundo, não tinha a “apresentação espetaculosa da Garnier”, mas possuía estoque variado e numeroso, segundo nos conta, fazendo a seguinte descrição:

Pequena e simpática loja. São três portas, um salão muito comprido, balcão no centro e as estantes altas de cinco a seis metros, correndo a extensa linha das paredes. No sobrado, o escritório e o depósito. As novidades científicas recebidas da velha Europa, aí vão ter em primeira mão. Há um serviço de catálogos admirável e todas as revistas bibliográficas do mundo estão à disposição da freguesia, numa organização lembrando a das livrarias inglesas.

 

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro de meu tempo.

Rio de Janeiro: Editora Semente, 1984. p.280

Edmundo não se restringe a descrever o ambiente, mas também traça um perfil do seu proprietário, com quem provavelmente conviveu, como podemos observar no seguinte relato que fez: “Briguiet é um gentleman. Tem maneiras distintas. Afabilidade. Linha. Cordura. Fez a prosperidade da loja sorrindo, cumprimentando, dizendo bem dos colegas, achando tudo bom, muito certo, muito natural.  Tipo sem pessimismos, sem arestas, sem atitudes desagradáveis, dá a impressão de um homem superior e feliz.”

 Luiz Edmundo registra a presença de Ruy Barbosa também na livraria  Briguiet, mas lá a Águia de Haia se mostra mais constante do que na Garnier.

Lá é que Rui Barbosa faz ponto certo e recebe recados e cartas, quando sai do Senado, após a tournée que faz às outras livrarias. Que ele as corre todas, quase diariamente, até as dos alfarrabistas, algumas bem distantes, como a do Martins, à Rua General Câmara, próximo ao Campo de Santana, e a do Paiva, à Rua da Lapa...(...)

 

EDUMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro de meu tempo.

Rio de Janeiro: Editora Semente, 1984.p. 279.

Na livraria Briguiet, ocorre o mesmo burburinho e movimento de anônimos para verem de perto as estrelas da intelectualidade da época, apesar de o país na ocasião  registrar então um baixo hábito da leitura.

Quando aí  [na livraria Briguiet] ele [Rui Barbosa} chega, os fregueses curiosos acotovelam-se, murmuram frases de admiração, de respeito, deitando-lhe olhadelas contundentes. O José de Matos, primeiro caixeiro da loja, vem logo para saudá-lo, avaselinado e carinhoso:

- Sr. Conselheiro...

O Sr. Conselheiro é homem de poucas palavras. Os oradores parlamentares, em geral, fora do palco da política, são, quase todos eles, mais ou menos assim. Rui fala pouco, por vezes, monossilabicamente, baixo, sério, abstrato, vagando entre pilhas de livros como dentro de um grande sonho, a varrer com o seu olho de míope, todo curvado, o dorso das encadernações e das brochuras postas latitudinalmente sobre a linha extensa dos balcões. Uma ou outra vez é que se volta para atender ao cumprimento dos que  se lhe aproximam com mostras de intimidade ou de carinho.(...)

 

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro de meu tempo.

Rio de Janeiro: Editora Semente, 1984.p. 280

Por reunir várias livrarias e ter se tornado um point cultural, a Rua do Ouvidor viveu momentos áureos, chegando até a ser tema de uma das crônicas de Machado de Assis: "Livreiro da Rua do Ouvidor", que festejava a efervescência existente nesta rua entre o final do século XIX e começo do século XX. Os cafés, as livrarias, tudo que vinha de novidades do Velho Mundo, antes passava pela Rua do Ouvidor.

Rua do Ouvidor, anos 1890. Foto de Marc Ferrez

 

No entanto, hoje, a Rua do Ouvidor não passa de uma sombra do que foi até  1900, quando houve a inauguração da Avenida Rio Branco e esta lhe tirou o posto de point da intelectualidade. Atualmente, essa via pública possui apenas duas pequenas livrarias: a Folhas Secas, especializada em temas  ligados ao Rio, futebol, música e temas afro-brasileiros, a Letra do Céu, especializada em livros, bíblias e revistas de estudo bíblico, e a blockbuster das livrarias, a Saraiva Ouvidor.

Nesses mais de cem anos, o mercado livreiro na cidade (e também no país) passou por uma série de crises,  sendo que a mais recentemente baixa foi a da sofisticada livraria Cultura no Rio de Janeiro.

Livraria Cultura do Rio de Janeiro

Patrimônio livreiro em Portugal

Na contra-mão da situação de crise que vivem as livrarias do Rio (e também do Brasil), podemos encontrar pelo menos duas livrarias em Portugal que vivem momentos de euforia, muito semelhantes ao que viveu a famosa livraria Garnier.

A que chama mais atenção é a Livraria Lello e Irmão, situada no Porto, considerada uma das mais bonitas do mundo: o jornal inglês The Guardian considerou-a a terceira mais bela do mundo, em 2008; a maior editora de guias de viagens do mundo, a Lonely Planet, a colocou no top 3 de livrarias mais belas; a famosa revista de viagens Travel + Leisure disse que a Lello era uma das mais estilosas; e o canal a cabo de notícias norte-americano CNN considerou-a, em 2014, a mais linda do mundo.

                                    Interior da livraria com decoração neogótica e vitrais

Sua famosa escada central teria inspirado a autora J.K. Rowling, que viveu no Porto no início dos anos 1990, a ambientar cenários descritos nos livros de Harry Potter, posteriormente adaptados para o cinema. Dependendo da posição em que se olhe, a  estrutura dessa imponente escada dá impressão de movimento, lembrando as escadas que se moviam no primeiro filme da saga de Harry Potter.

Cena do filme “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, onde podem ser observadas escadas que se movimentam.

A Lello esteve prestes a fechar as portas anos atrás, mas agora, na alta temporada turística, recebe cerca de quatro mil visitantes diariamente. Para evitar a falência, a direção da livraria teve a ideia de aumentar as atividades culturais e de cobrar uma entrada, atualmente, de 5 euros. Essa entrada se transforma em um bônus dedutível quando é comprado um livro na Lello

Esse sistema instalado há quatro anos "facilitou a regulação do fluxo de turistas" e "transformou  o visitante em leitor", comemorou Aurora Pedro Pinto, presidente do conselho de administração, em entrevista distribuída pela Agência France Press esse ano.  Além disso, fez com que a livraria Lello  viesse a se tornar uma das principais atrações turísticas da cidade do Porto, situada no norte de Portugal.

Porto, Portugal. Vista da Ponte Luis I

Com celulares para tirarem fotos, todos os dias centenas de pessoas fazem fila para visitar a livraria, construída em estilo neogótico portuense. A fachada apresenta um arco abatido de grandes dimensões, com entrada central e duas montras laterais. Acima, três janelas retangulares ladeadas por duas figuras pintadas representando a "Arte" e a "Ciência". Uma platibanda rendilhada remata as janelas, terminando a fachada em três pilastras encimadas por coruchéus,  com vãos que formam um  conjunto de arcos que sustentam o pórtico de um edifício em estilo neogótico. A decoração é complementada por motivos vegetais, formas geométricas e a designação "Lello e Irmão", sob as janelas.

Livraria Lello e Irmão, Porto.

No interior, os arcos quebrados apoiam-se nos pilares em que, sob baldaquinos rendilhados, o escultor Romão Júnior esculpiu os bustos dos escritores Antero de Quental, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga, Tomás Ribeiro e Guerra Junqueiro. Os tetos trabalhados, o grande vitral que ostenta o monograma e a divisa da livraria "Decus in Labore" e também a escadaria de grandes dimensões de acesso ao primeiro piso são as marcas mais significativas da livraria.

Tereza Maria Tavares dos Santos Jorge