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Lisboa, suas leis revisitadas

na poesia de Luís Quintais

A cidade é um olho que perscruta,

um óleo que se espalha.

Negro. Espesso. […]

 

«Lisboa foi a minha cidade, um dia.

Agora, mastigo-a. O vento de verão,

siroco do pensamento árido, ainda o escuto

 

E é toda a adolescência»

 

QUINTAIS, Luís. “Lisboa”. A noite imóvel. Porto: Assírio & Alvim, 2017, p. 121,122.

 

Nascido em Angola (1968), vivendo atualmente em Coimbra, o poeta português Luís Quintais cresceu e estudou em Lisboa, sua “antiga cidade” a qual muitas vezes é evocada em sua obra poética. Percorrer seus poemas é atravessar espaços urbanos, seguindo um olhar descontinuo entre o atual e o antigo. As paisagens repletas de ruínas levam o sujeito poético a constantes indagações sobre o gesto de ver: o que vemos? O que não vemos?

Ruínas do Convento do Carmo em Lisboa

Descrevo Lisboa. Vigio-a num bloco de notas,

imensa, distinta daquilo que, aparentemente,

vem ter comigo através do ilusório legado

dos sentidos e da treva que por dentro os toca.

Há um silêncio e uma presença que não se conhecem.

 

QUINTAIS, Luís. “Três anotações: Lisboa, suas leis revisitadas”. Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 670-671.

No poema “Três anotações: Lisboa, suas leis revisitadas”, o olhar vigilante do sujeito poético busca fixar imagens de Lisboa, mas a descrição dá lugar a um registro reflexivo da cidade e de seu legado literário. Lisboa constitui-se na diferença entre o que se vê e o que se imaginou a partir de uma memória coletiva do passado. O legado herdado, o repertório histórico-cultural, projeta na imagem vista os vestígios do que se foi, de modo que a cidade surge em diferentes tempos, tornando-se inapreensível completamente. Lisboa é memória, fluxo de imagens permeado de falhas, de esquecimento. Aquilo que é lembrado, que resiste ao desaparecimento, é inseparável da imaginação: reconstituir o passado é também projetar uma ficção, pois a fidelidade dos fatos não pode ser assegurada. Por isso Lisboa é constituída por um “ilusório legado”, entre realidade e ficção, silencio e presença. Suas “leis revisitadas” são as leis da descontinuidade, elaboradas no poema através de três anotações, como se fossem três lições de como ver Lisboa:

Primeira anotação: «Lisboa nunca se conhece.

Teria de olhar para trás, para a acumulada memória.

Alguém que não esquecesse, seria essa a aposta.»

 

QUINTAIS, Luís. “Três anotações: Lisboa, suas leis revisitadas”. Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995. Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 670-671.

A primeira lição, portanto, seria que qualquer visão de Lisboa é parcial, incompleta, já que o presente é indissociável de seu passado e o olhar, preso nos limites da memória, não consegue ter uma visão totalizante do presente e atribuir-lhe completo sentido. A compreensão se dá no caminhar, sempre a posteriori, no ir e vir pelo espaço das ruas, no movimento de recordação da “escura vertente do tempo”, que reitera, situando historicamente o sujeito sempre em posições diferentes, movediças diante das imagens que vai recebendo do passado.

Estátua de Fernando Pessoa na rua Garrett, em Lisboa, em frente ao Café A Brasileira

A passagem do tempo é sentida nesse movimento de reiteração, através da revisitação do legado que faz coabitar vozes, sobrepostas e fragmentadas, a chamarem o sujeito poético que busca conhecer seu lugar e sua própria voz. Assim, o poema nos traz a voz de Fernando Pessoa (1888 – 1935), evocando no título o poema Lisbon Revisited (1923). O título em inglês, no poema pessoano, sugere a visão de um sujeito poético que se sente estrangeiro em uma cidade na qual não se reconhece. A Lisboa da infância era uma promessa de felicidade que, face ao vazio do presente, torna-se mágoa revisitada. O sujeito é indiferente ao legado, à civilização, preferindo não ter coisa nenhuma e escolhendo a solidão:

Não: não quero nada

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer. […]

 

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

 

PESSOA, Fernando. “Lisbon revisited (1923)”.

Poesias de Álvaro de Campos. Porto: Assírio & Alvim, 2013, p. 271, 272.

Fernando Pessoa no Bairro da Baixa em Lisboa, entre 1920 e 1935.

No poema de Fernando Pessoa, o sujeito se recusa a fazer parte da sociedade tal como ele a vê: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?”. Indiferente a tudo, sua própria língua e pátria tornam-se elementos estranhos. Luís Quintais, revisitando Fernando Pessoa, cria uma provocação:

Segunda anotação: «Em Londres foram recenseadas

cento e muitas línguas. Aqui algumas poucas menos.

Sabe-se como é, pede-se grandeza, recebe-se a escória dos séculos.

 

QUINTAIS, Luís. “Três anotações: Lisboa, suas leis revisitadas”.

Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995.

Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 670-671.

A segunda lição ironiza os anseios da história por dar a ver Lisboa como uma cidade cosmopolita e pela busca de um passado glorioso de Portugal e da língua portuguesa. “Reparo na distância. Ficaria parado, / perto da insubmissa tranquilidade das línguas esquecidas”. No poema de Luís Quintais, idioma e pátria sobrevivem nas sombras, são as “escorias dos séculos” , resíduos de uma “manhã prometida” , um ilusório legado desviado do projeto de grandeza. Nesta fronteira, entre o que vemos e o que queremos, chegamos na terceira lição:

Terceira anotação: «Simetria alheia à oratória das pedras.

Pretéritos. Aparas de sombra.»

 

QUINTAIS, Luís. “Três anotações: Lisboa, suas leis revisitadas”.

Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995.

Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 670-671.

Se o poema nos ensina uma forma disforme da cidade, cruzada por diferentes tempos, se a língua dos poetas que tanto a evocou, culmina em mudez, como, afinal, ver Lisboa? Resta vasculhar as sombras, os ecos, os resíduos do passado, sem pretensão de um retrato suntuoso e épico. As leis da revisitação ensinam a ver entre o que está e o que já não está, ensinam a apanhar o “mundo de esguelha”. Nessa perspectiva, Lisboa na poesia de Luís Quintais traz o eco de outra voz poética, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004):

Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen no Largo da Graça em Lisboa.

A tua cidade, a minha antiga cidade,

agora de muros riscados

pelo indecifrável gume do graffiti,

como se a luz intransparente

nos tivesse queimado por dentro.

Que dizer dessa mão cruel

e escrevente?

 

QUINTAIS, Luís. “Sophia em Lisboa, Ainda”.

Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995.

Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 149.

Almada, Lisboa, 2019

Bairro Alto, Lisboa, 2007

No poema “Sophia em Lisboa, ainda”, a cidade de agora é distinta da rememorada pelo sujeito poético, afastando-se também da Lisboa evocada na poesia de Sophia. Não há semelhança entre passado e presente, há estranhamento. A mão que escreve o poema – assim como a mão que produziu o graffiti indecifrável nos muros – não dá a ver Lisboa. A luz é intransparente, as imagens não se revelam, a cidade não se abre como acontece na poesia de Sophia:

Digo:

«Lisboa»

Quando atravesso – vinda do sul – o rio

E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse

Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna

Em seu longo luzir de azul e rio

Em seu corpo amontoado de colinas –

Vejo-a melhor porque a digo

Tudo se mostra melhor porque digo

[…]

Digo o nome da cidade

– Digo para ver

 

MELLO BREYNER ANDRESEN, Sophia. “Lisboa”. Obra Poética,

Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 719

Lisboa, vista do rio Tejo

“Que dizer?”, “Que dizer-te?”, pergunta o sujeito no poema de Luís Quintais, “sentado e escuro”, fazendo alusão às palavras que já não dão a ver, ou seja, a visão que avista não reconhece, desvia-se da imagem da memória, daí a destruição no interior do sujeito, pois o tempo do “aqui” e “agora” não consegue mais presentificar o passado. A Lisboa de outrora, “A tua cidade, a minha antiga cidade” surge como imagem irresgatável.

Que dizer-te?

Um silvo flecte o ar.

É a tua voz distorcida,

dobrada pelo eco,

o da descrença.

 

QUINTAIS, Luís. “Sophia em Lisboa, ainda”.

Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995.

Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 149.

A voz do sujeito, formada pelos ecos deste legado de vozes poéticas, retoma e ao mesmo tempo distorce a voz de Sophia, sendo nesse desvio, nessa distorção que se delineia sua própria voz já sem esperanças, como se a descrença que ela carrega vergasse o canto da tradição, prolongando o legado poético de forma mais rasteira, mais profana.

Portanto, falar de Lisboa na poesia de Luís Quintais é mobilizar um acervo literário, promovendo um diálogo intertextual que vai compondo um itinerário poético da cidade. Esse percurso leva-nos à “Rua Castilho” e ao poeta António Feliciano de Castilho (1800-1875).

Rua Castilho, Lisboa

Eu compreendia o poder da toponímia. Rua Castilho, escrevia-se, e o vírus da linguagem percorria o labirinto da história e da circunstância que fazia determinar-lhe os sentidos. Castilho fora um poeta cego envolvido em polémicas cuja esterilidade revelava o perfil de homens que juram mudar os seus tempos por reacção ao tempo de outros homens. Hoje, porém, é a figura de um poeta cego o que faz reverberar os códigos extremos, é o que faz desfilar a tradição e o que interpela o vazio que a tradição nos legou. […]

 

Talvez Castilho se esquecesse que a solidão face ao arbítrio das ruas que se cruzam e apelam a nomes que se apagam nos cadernos do futuro nos reserva mais aventura que o sacramento entre homens de letras presos à sua ilusória relevância. O que se apaga deixa um vestígio de treva dentro de si e um cheiro a madeira ou a terra calcinada que nos persegue. A imoral, porque tão vaga, toponímia no coração de uma cidade detém mais lições que o proselitismo dos inflamados versos

 

QUINTAIS, Luís. “Rua Castilho”.

Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995.

Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 437.

O poema tece uma reflexão sobre a designação arbitrária dos nomes dos lugares e a referência à tradição literária a partir deles, ironizando que, ao se tornar nome de rua, António Feliciano de Castilho conquistou a relevância que a sua obra não obteve. Seu nome fixado na placa da rua torna-se, assim, um vestígio que persiste de um passado esquecido, um resíduo da vontade de fama deste escritor que, na segunda metade do século XIX, criticou os jovens escritores conhecidos como “Geração 70” ou “Geração de Coimbra”, afastados da estética romântica e próximos do Realismo e do Naturalismo. Castilho, defensor do romantismo, acusa-os de falta de bom senso e bom gosto. Esse ataque é respondido pelo escritor Antero de Quental (1842-1891), provocando uma polêmica que ficou conhecida como “Questão Coimbra”. Toda a disputa literária suscitada por Castilho, toda a preocupação em defender o bom senso e o bom gosto reduziram-se na figura de um poeta cego cujo nome é mais conhecido na cartografia da cidade de Lisboa do que nas páginas da literatura portuguesa.

Estátua de António Feliciano de Castilho na Avenida da Liberdade em Lisboa.

Embora Lisboa constitua-se dos vestígios da história, de um legado compartilhável, ela não deixa de mobilizar igualmente um acervo de pessoas do convívio íntimo e afetivo do sujeito, compondo uma memória de rostos ausentes, um mosaico de experiências perdidas:

São mutuamente exclusivas as ordens da confissão e da poesia. Assim nos disseram os modernos. Sejamos modernos, pois. Mas quando vejo a minha mãe a subir (passo medido pelo cansaço e pela fraqueza) a Rua Castilho, a rua onde cresci e onde o mundo parece ter crescido desmesuradamente para a minha medida de homem acostumado às alturas (vivia num quinto andar que me parece agora um décimo), quando vejo a minha mãe de corpo pesado a subir a rua em direcção ao meu encontro, parando uma, duas vezes, passando as mãos pelo rosto suado (afinal estamos no pino do verão e a rua foi sempre soalheira, ou pelo menos soalheira deste lado em que a minha mãe sobe, o lado que habitámos após o nosso regresso das Áfricas, com o problema da habitação e tudo isso que parecia desesperar os enteados do Império), quando vejo a minha mãe subir a rua onde a minha lembrança dela estaca e se precipita no vórtice da ilegislável brandura (a que terá feito Santa Teresa levitar ou algo entre a pura irrealidade e a pura realidade que todo o poema deveria sitiar), sei que os modernos nos pouparam ao infortúnio da confissão, mas que nos roubaram o idioma em que a luz de verão se faz de novo, como o princípio que quero descrever certeiramente sem que lhe saiba o tema ou a palavra que o torna claro.

 

QUINTAIS, Luís. “Il faut être absolument moderne”.

Arrancar penas a um canto de cisne. Poesia 2015-1995.

Porto: Assírio & Alvim, 2015, p. 438.

Este poema pode ser lido no prisma do embate com a tradição e com o legado moderno, evidenciando o conflito entre impessoalidade e subjetividade. A escrita carregada de uma herança moderna, como evidencia o título “Il faut être absolument moderne”, referência à obra Une Saison en Enfer (1873), do poeta francês Arthur Rimbaud, surge infiltrada de relatos confessionais. Mas qual a relação dessa reflexão sobre projetos de escrita poética e a cidade de Lisboa? Lisboa é sobretudo linguagem! Imaginário recriado pelas palavras, redito e sitiado a partir dos resíduos de uma memória coletiva e individual, de um legado que é literário e histórico, mas que também colhe afetos, vivências da vida comum e quotidiana.

A imagem da mãe a subir a rua é lembrança remota que vai e vem no próprio movimento do texto, nas frases longas e inconclusas, culminando em imagem aberta, inacabada, assim como se dá o movimento repetitivo da memória: um constante reiterar que inscreve e difere, revisita, cria lugares, idioma, que dão ao sujeito uma possibilidade de nomear – ainda que as palavras sejam frágeis – e um sentimento de pertença – ainda que os lugares estejam sempre ameaçados de desaparição.

Lisboa, entre o familiar e o estranho, por um lado, surge como abismo entre o sujeito e seu lugar, seu idioma, impossibilitando a apreensão das imagens e evidenciando um espaço subjetivo devastado, como uma “morada que se espalha”; mas, por outro lado, Lisboa não deixa de afetar, de invocar relações e sentidos, de possibilitar o ato de dizer, mesmo que seja um ato balbuciante para falar de um tempo perdido. Um ato de linguagem que recolhe “a poeira que lhe sobrou depois do esquecimento”.

Deyse dos Santos Moreira