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Lima Barreto

de bonde pelo Rio:

Paisagem e memória

O bonde chegou à Praça da Glória. Aquele trecho da cidade tem um ar de fotografia, como que houve nele uma preocupação de vista, de efeito de perspectiva; e agradava-lhe. O bonde corria agora ao lado do mar. A baía estava calma, os horizontes eram límpidos e os barcos a vapor quebravam a harmonia da paisagem.

 

 LIMA BARRETO, A. H. Um e outro. In:

Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p. 247-257.

 

 

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) apresenta abordagem diversificada para a paisagem. Vamos mostrar dois aspectos mais significativos. Primeiro, o olhar para a paisagem que mescla imagens da natureza às da memória, numa combinação de múltiplas perspectivas.  E, em segundo, temos a crítica à construção cultural da paisagem, feita por discursos como o literário, que tornou o pitoresco uma necessidade estético-política.

Observador em deslocamento constante, o escritor fez da viagem urbana – de trem, bonde ou a pé – estratégia para ver a cidade e sua gente sob múltiplas perspectivas.

Largo da Glória, por volta de 1915. Foto: Malta

Tomar o bonde como local de observação é uma interessante estratégia para descrever a paisagem urbana em movimento, o que permite ao leitor visualizar, simultaneamente, a temporalidade múltipla e a sobreposição entre mar e montanha, história e progresso, passado e presente, como a bela descrição pode exemplificar. Pode-se perceber também a clara aplicação  da técnica do panorama, ou vista de panorama, com a dilatação do espaço pela multiplicação de perspectivas e, ao mesmo tempo, o encurtamento do espaço pela circulação.

O bonde ia agora atravessando os Arcos. Sob a luz de um dia brumoso, encoberto, um dia pardo, a cidade se estendia irregular e triste. Bondes, carros, transeuntes passavam por debaixo da arcaria secular. Escachoavam, marulhavam, rodomoinhavam, como a águas de um rio. As casas eram vistas pelos fundos e os passageiros entravam um pouco na vida íntima dos seus habitantes.(...) Foi um alívio quando penetrou pelo flanco da montanha de Santa Teresa, guinchando estrepitosamente, vencendo a rampa que o levava morro acima. A cidade se foi vendo melhor. Lá estavam as ruas centrais, cobertas de mercancia; mais além, a Cidade Nova; acolá a pedreira de São Diogo, chanfrada, esfolada e roída pela teimosa humanidade; a estrada-de-ferro, o Mangue...

(..)O mar parecia coagulado ou feito de um líquido pesado e espelhante; os navios estavam como incrustados nele e as ilhas pareciam borrões naquele espelho fosco.

LIMA BARRETO, A. H. Numa e Ninfa. In:

Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p. 95-96.

Rio de Janeiro, Arcos da Lapa, Convento de Santa Teresa,antigos bondes, 1915

A descontinuidade do olhar captura também a descontinuidade existente na percepção pelos sentidos e o modo como o ritmo moderno penetra os espaços do cotidiano. A experiência do passeio urbano desloca o que parece inalterável: o espaço. As informações objetivas de lugares aparentemente estáveis e passíveis de verificação pelo leitor mesclam-se à perspectiva inconstante e subjetiva do olhar do indivíduo no bonde. Observamos, portanto, a técnica do olhar panorâmico, o deslocamento que permite escoar o passado no presente

Praça Mauá, por volta de 1920

Em seus deslocamentos pela cidade, o olhar do cronista ganha profundidade espacial e temporal, ao caminhar pelos subúrbios, observando, entre outras coisas, os cortejos fúnebres de Inhaúma.  O ambiente quase rural contamina a sua sensibilidade e a parada descompromissada num botequim permite aproveitar a paisagem que ganha movimento, luz, cor e, sobretudo, elos de memória.

Em geral assisto a passagem desses cortejos fúnebres na rua José Bonifácio canto da Estrada Real. Pela manhã gosto de ler os jornais num botequim que há por lá. Vejo os Órgãos, quando as manhãs estão límpidas, tintos com a sua tinta especial de um profundo azul-ferrete e vejo uma velha casa de fazenda que se ergue bem próximo, no alto de uma meia laranja, passam carros de bois, tropas de mulas com sacas de carvão nas cangalhas, carros de bananas, pequenas manadas de bois, cujo campeiro cavalga atrás sempre com o pé direito embaralhado em panos.

Em certos instantes, suspendo mais demoradamente a leitura do jornal, e espreguiço o olhar por sobre o macio tapete verde do capinzal intérmino que se estende na minha frente.

Sonhos de vida roceira me vêm; suposições do que aquilo havia sido, ponho-me a fazer. Índios, canaviais, escravos, troncos, reis, rainhas, imperadores – tudo isso me acode à vista daquelas coisas mudas que em nada falam do passado.

De repente, tilinta um elétrico, buzina um automóvel, chega um caminhão carregado de caixas de garrafas de cerveja; então, todo o bucolismo do local se desfaz, a emoção das priscas eras em que os coches de Dom João VI transitavam por ali, esvai-se e ponho-me a ouvir o retinir de ferro malhado, uma fábrica que se constrói bem perto.

Vem porém o enterro de uma criança; e volto a sonhar (Lima Barreto, Os enterros de Inhaúma).

 

LIMA BARRETO, A. H. Os enterros de Inhaúma. Feiras e Mafuás.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p. 288.

A natureza visível com todo o seu dinamismo faz uma interessante analogia com os sentimentos do observador cronista: o impacto multissensorial da paisagem evoca lembranças, traços da memória coletiva, a partir do sonho. O resultado revela uma sobreposição espaçotemporal com índios, canaviais, escravos, automóveis e coches de Dom João VI.

Nos seus romances, os passeios e deambulações dos personagens como Isaías Caminha e Gonzaga de Sá, produzem uma combinação de múltiplas perspectivas: a atmosfera lírica de ecos do passado, os perigos e choques da rua, presentes no trânsito como ameaça à vida e ao corpo; fragmentação de percepções da experiência urbana, em momentos e espaços diversos; a densidade temporal do instante que integra passado e presente, memória cultural e sujeito.

Uma espécie de sensibilidade impressionista contamina a perspectiva do olhar do protagonista e a estrutura do romance Recordações do escrivão Isaías Caminha e tudo se e a linguagem rivaliza com a gama de cores usadas por um pintor,  envolvendo a exploração da luz, cor, movimento textura e na descrição da experiência urbana.

Botafogo, pintura de  Henry Chamberlain

A longa passagem, do primeiro encontro do personagem com a cidade, mostra-nos o belo acordo entre sujeito, natureza e cidade que tem como princípio o movimento, e não a mera contemplação passiva. O movimento exige fechar os olhos para ver.

O espetáculo chocou-me. Repentinamente senti-me outro. Os meus sentidos aguçaram-me; a minha inteligência, entorpecida durante a viagem, despertou com força, alegre e cantante... Eu via nitidamente as cousas e elas penetraram em mim até ao âmago(...). Voluptuosamente, cerrei os olhos; depois, aos poucos, descerrei as pálpebras para olhar embaixo o mar espelhento e misterioso. A barca vogava, as águas negras abriam – fingindo resistência, calculando a recusa. O casario defronte – o da orla da praia, envolvido já nas brumas da noite, e o do alto, queimando-se na púrpura do poente – surgia revolto aos meus olhos, bizarramente disposto sem uma ordem geometricamente definida, mas guardando com as montanhas que espreitavam a cidade, com as inflexões caprichosas das colinas e o meandro dos vales, um acordo oculto, um sentimento lógico.

 

LIMA BARRETO, A. H de. Recordações do escrivão Isaías Caminha.

São Paulo: Ática, 1990.

A inserção de aspectos impressionistas liga-se ao aprofundamento da perspectiva psicológica. A relativização da perspectiva temporal, por meio da justaposição de tempos distintos e do relato de tudo a partir da consciência do protagonista, permite menor valorização da cronologia e dos acontecimentos externos. O mais importante é o resultado do tempo e das ações exteriores sobre a personalidade do sujeito. Assim, os efeitos da cor, textura, a valorização da luz garantem dinamismo e evocam a atmosfera pictórica de sensações, ao lado de perambulações, encontros fortuitos, prazeres passivos, sensações inesperadas que, no conjunto, caracterizam a forte nuance impressionista no romance

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, primeiro romance escrito por Lima Barreto (1906), mas só publicado em 1919, por opção do autor, a premissa da narrativa está no olhar, de narrador e personagem, que decompõe imagens em conjunto, pretensamente em harmonia, deslocando-lhes os sentidos. Serão, portanto, os passeios para contemplar a paisagem urbana, a beleza da natureza, as longas conversas à mesa do jantar, o olhar que acompanha o movimento das nuvens, da fumaça de um cigarro, das botas de um soldado na pompa de um desfile militar o foco da narrativa que se desvia da concepção da vida, como um bloco ordenado, para a articulação de muitos e distintos instantes. O ato de contemplar a natureza, realizado por um observador em deslocamento constante, permite que a percepção da paisagem perca seu caráter previamente dado, tornando-se modulada por temporalidades distintas e processos psicológicos. O resultado está na aproximação gradual, movente e instável do objeto contemplado. A a baía  de Guanabara, as palmeiras pensativas tornam-se, simultaneamente, passado e presente; mesclam-se à memória do observador aspectos da memória cultural e revestem-se do poder de também emitir linguagem, contar histórias – para quem sabe ouvi-las.

Fazia uma tarde dúbia, de luz irregular e ameaçando tempestade;(...) Chegado que fui, sentei-me a um banco embutido no muro bem defronte a uma das novas escadarias que levam à gabada Avenida “Beira Mar”. Em seguida, puxei um cigarro e pus-me a fumá-lo com paixão, olhando as montanhas do fundo, afogadas em nuvens de chumbo; e engastado na barra de anil, um farrapo de púrpura, que se estendia por sobre os ilhotes por fora da baía. Considerei também a calma face da Guanabara, ligeiramente crispada, mantendo sorriso simpático na conversa que entabulara com a grave austeridade das serras graníticas, naquela hora de efusão e confidência. Villegagnon boiava na placidez das águas, com seus muros brancos e suas árvores solitárias.

 

LIMA BARRETO, A. H. Vida e morte de M.J.Gonzaga de Sá.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p. 67.

Percebe-se novamente o encontro casual, a perambulação, a fruição da paisagem que evoca sensações e o impacto multissensorial sobre o observador. O ambiente - com nuvens em movimento, clima em transformação, entrelaçamento temporal - torna-se um interessante contraponto ao fluxo de sentimentos, tensões e desejos do observador.

Urca, Rio de Janeiro, Praia da Saudade, Facchinetti 1868

Traços impressionistas no romance, portanto, e a cidade é apresentada em seus vários instantes e espaços. Ao leitor fica a tarefa de reunir e interpretar os instantâneos de sensações, à medida em que também é afetado por eles.

O mar estava calmo naquelas alturas e quem o olhasse, por cima, vê-lo-ia ligeiramente enrugado. As alturas apareciam cristalinas e o sol caía em jorros de luz sobre a superfície da baía. Começara já a viração. Ao fundo, e na frente, as montanhas saíam nitidamente do painel em que apareciam pintadas. Uma ilhota, com sua alta chaminé, não diminuía o largo campo de visão que o mar oferecia. Alonguei a vista por ele afora, deslizando pela superfície imensamente lisa. Surpreendi-o quando beijava os gelos do pólo, quando afagava as praias da Europa, quando recordava a costa da Ásia e recebia os grandes rios da África. Vi a Índia religiosa, vi o Egito enigmático, vi a China hierática, as novas terras da Oceania e toda a Europa abracei num pensamento, com sua civilização grandiosa e desgraçada, fascinadora, apesar de julgá-la hostil. [...] Olhei o mar de novo. Boiavam sargaços, balouçando-se nas ondas, indo de um para outro lado, indiferentes, à mercê dos movimentos caprichosos do abismo. Felizes!

 

LIMA BARRETO, A. H. Vida e morte de M.J.Gonzaga de Sá.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p.130-131.

Reconhecer o legado presente nas imagens da natureza indica que a paisagem nem sempre é bucólica, prazerosa ou estável, um cenário com função de sedativo. As sugestões da memória aprofundam o olhar para as nossas marcas na paisagem, produzindo a ruptura das expectativas convencionais de espaço e profundidade.

Destaca-se até aqui a incorporação da técnica (imprensa, fotografia, pintura e cinematógrafo) na apresentação da paisagem urbana para condensar num instantâneo sua complexa simultaneidade, num espaço em que tudo se superpõe: de topografia a memórias pessoais, diferentes tempos, coordenadas e dimensões.

Como cronista de forte presença na imprensa de seu tempo, Lima Barreto que se dizia “homem de cidade”, lamenta o desinteresse pela natureza dos abastados proprietários de casas na cidade do Rio de Janeiro: “Onde estão os jasmineiros das cercas? Onde estão aqueles extensos tapumes de maricás que se tornam de algodão que mais é neve, em pleno estio?” Não eram só essas árvores que a enchiam, mas muitas outras de frutas adorno, como as palmeiras soberbas, tudo isso envolvido por bambuais sombrios e sussurrantes à brisa

LIMA BARRETO, A. H. Marginália.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p.277.

Seu mais famoso personagem – Policarpo Quaresma – traz os olhos contaminados do pensamento da paisagem, colhido em leituras de historiadores e da ficção romântica. Na sua viagem em direção à natureza brasileira e às marcas de memória cultural nela fixadas, realiza um percurso simultâneo de conhecimento – do discurso intelectual que a produziu – e de autoconhecimento, reconhecendo-se como subjetividade dilacerada. Um traço de melancolia perpassa o personagem, porém o traçado que a constitui, feito da tragicidade e do risível da condição humana, torna aquela melancolia paradoxalmente divertida.

Assim, é ao encontro do imaginado paraíso que caminha o protagonista do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, com certeza de que há muito a fazer para resgatar a imagem do país, cujas terras férteis e abundantes necessitam, na ótica da personagem, apenas de boa administração. Por sugestão da afilhada Olga, o Major Quaresma compra um sítio ironicamente chamado de “Sossego”(as aspas existem no texto e são pertinentes) e anuncia o narrador: “Não era feio o lugar, mas não era belo

LIMA BARRETO, A. H. Triste fim de Policarpo Quaresma.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p. 115.

Taunay, Barão de Taunay Vista da Mãe d´água (Paisagem da Tijuca)1850

E é com a força do extraordinário “Golias” (nome de um dos capítulos em que se acirra a luta do protagonista com a terra) que Policarpo decide comprovar a riqueza do paraíso. Autodidata e muito lido e sabido em cousas brasileiras, às imagens românticas de referência à terra o personagem associa recursos cientificistas de interpretação e análise, com o aparato  técnico e instrumental vindos da Zoologia, Botânica, Mineralogia e Geologia. Planeja com toda determinação, as transformações da base agrícola, sem, contudo, deixar de exalar sonhos que bebem nas fontes do extraordinário.

Será necessária a visita de Olga, a afilhada, ao “Sossego” e a sua lucidez para refletir criticamente, primeiro junto ao leitor e, depois, iluminar as noções do padrinho sobre pitoresco, terra, homem, trabalho do campo, auxiliando a sua aquisição de conhecimento crítico. Suas reflexões também lembram ao leitor as imagens pitorescas da plantadas em nosso imaginário pela literatura, como exemplo “o sol coava-se e vinha faiscar sobre a água” ou, ainda “periquitos de um verde mais claro, como incrustações na natureza”.

O lugar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros, despenhava-se em três partes, pelo flanco da montanha abaixo. A água estremecia na queda, como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma abóbada de árvores. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre a água ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações daquele salão fantástico.

LIMA BARRETO, A. H. Triste fim de Policarpo Quaresma.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p. 161.

O que mais a impressionou foi “o ar abatido da gente pobre” e o espetáculo não animador de pobreza, tristeza e doença. No lugar de roceiros alegres, felizes e saudáveis, a afilhada de Quaresma encontrou sapês sinistros, casas soturnas de habitantes sorumbáticos, acusados de preguiçosos e indolentes. “Havendo tanto barro, tanta água, porque as casas não eram de tijolos e não tinham telhas?(...) Por que ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar?”

LIMA BARRETO, A. H. Triste fim de Policarpo Quaresma.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p. 162.

Suas reflexões produzem um questionamento, bastante atual, acerca da desigualdade na distribuição de riquezas, da noção de trabalho e dos frágeis, e tensos, limites entre trabalho livre e escravidão, além de trazer ecos dos discursos de intelectuais e do poder da função estética da palavra que construiu, a partir da literatura romântica, uma interpretação da cultura, da terra e do homem As interrogações de Olga dialogam com as imagens literárias que preencheram as lacunas da história cultural brasileira: constatações do cenário miserável do campo mescladas ao extraordinário da construção romântica.

A dor do Major Quaresma, estudioso e leitor, ao descobrir que apreendera como verdade “objetiva” o conjunto de metáforas, metonímias e antropomórficos que compõem a retórica da paisagem é lancinante. À medida que desvenda o quanto de invenção guardam aquelas verdades, cresce como personagem e adquire o conhecimento crítico de intelectual, mas aumenta sua insignificância trágica para a sociedade. E novamente o mar, a imagem predominante de natureza nas obras de Lima Barreto, expressa a dimensão do sofrimento no processo simultâneo de conhecimento e autoconhecimento. http://www.multirio.rj.gov.br/index.php/assista/animacao/1786-triste-fim-de-policarpo-quaresma-lima-barreto

De tarde, ele ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora eram lanchas fumarentas que lá iam para o fundo da baía; ora pequenos botes ou canoas, roçando carinhosamente a superfície das águas, pendendo para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quisessem afagar a espelhejante superfície do abismo. Os Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial que inebriava, embriagava, como um licor capitoso.

 

LIMA BARRETO, A. H. Triste fim de Policarpo Quaresma.

In: Obras de Lima Barreto. São Paulo: Editora Brasiliense p.279.

Urca e Botafogo  Johann Jacob Steinemann

A mesma natureza, em traços impressionistas, também aparece no olhar do protagonista do romance Recordações do escrivão Isaías Caminha (1907) para a natureza, que se apresenta em cenas que sugerem cor, aroma, movimento, textura.

Eram as mesmas charnecas úmidas ao sopé de morros de porte médio, revestidos de um manto ralo, anêmico, verde-escuro, onde, por vezes, uma árvore de mais vulto se erguia soberbamente como se o conseguisse pelo esforço de uma vontade própria. O sol coava-se com dificuldade por entre grossos novelos de nuvens erradias, distribuindo sobre as cousas que eu ia vendo, uma luz amarelada e desigual. Pelo declive suave de uma encosta, o tapete escuro do mato aparecia mosqueado com manchas arredondadas, claras e escuras, salpicadas com relativa regularidade. Por aqui, por ali, trechos foscos e baços contrastavam com tufos vivos, profusamente iluminados – rebentos de vida numa pele doente...

   LIMA BARRETO, A. H de. Recordações do escrivão Isaías Caminha.

São Paulo: Ática, 1990.p.26.

A extensa descrição com tons de “amarelado desigual”, “trechos foscos e baços”, mato “verde-escuro”, como tufos “iluminados e vivos numa pele doente”, contrasta com a imagem de natureza pujante, comum nos textos de literatura brasileira, no século XIX, como afirmação de brasilidade.

Desconstruir a poderosa rede de imagens estereotipadas, que orientam o cotidiano dos brasileiros, requer do crítico e pensador uma reeducação do olhar, para a terra e para o homem. Essa foi a tarefa executada por Lima Barreto visível desde as anotações de diários e correspondência até os diversos textos literários que dialogam com a tradição, com os novos recursos estéticos e assimilam as  novidades  técnicas que alteraram o cotidiano, no começo do século XX.