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De volta à Cidade Invicta

pelos braços de

Júlio Dinis

Havia menos estrelas no céu, do que máscaras nas ruas. Fevereiro, esse mês inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau humor; mas, embora; o folgazão Entrudo ria-se de tais severidades e dançava ao som do vento e da chuva, e sob o dossel de nuvens negras que se levantavam do sul. Graças à cheia do Douro, a cidade baixa podia bem prestar-se naquela época a uma paródia do Carnaval veneziano.

DINIS, s.d, pp.603-604

Publicado como folhetim em 1867, Uma família de Ingleses, subintitulado Cenas da Vida do Porto, sugere um verdadeiro roteiro pela cidade invicta, levando o leitor pela mão a seus pontos mais emblemáticos. Já na publicação em livro, o romance passaria a nominar-se Uma Família Inglesa (1868) e, dada a repercussão da obra, causaria impacto no percurso de seu autor, que à altura utilizava o pseudônimo que viria a eternizá-lo.

Joaquim Guilherme Gomes Coelho, seu nome de batismo, mostra-se um legítimo “tripeiro” e situa na cidade que o viu nascer a história de amor entre Carlos Whitestone, filho de um comerciante inglês, e Cecília, filha de um guarda-livros português.

Os jovens se conhecem em uma noite de carnaval e, à medida que se envolvem afetivamente, promovem a aproximação de seus pais para além do plano profissional. Até o final da narrativa, a relação entre o patrão e o empregado há de transmutar-se em convivência entre iguais, acenando para a mobilidade entre as classes.  Nesse processo, a paisagem oferece o seu especial contributo para o desenrolar da narrativa, como veremos em seguida.

Desde o início do romance, a cena urbana portuense dialoga com as iniciativas das personagens. Haja vista o vaguear de Carlos Whitestone e seus amigos pela cidade, em pleno Carnaval de 1855. Na época, o restaurante Águia de Ouro, no Largo da Batalha dá o tom boêmio à agitada vida noturna portuense:

A animação era geral na cidade. Todos corriam com ânsia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.

Alguma coisa havia também na Águia de Ouro, a anciã das nossas casas de pasto, a velha confidente de quase todos os segredos políticos, particulares e artísticos desta terra; alguma coisa havia nessa modesta casa amarela do Largo da Batalha, que desviava para lá os olhares de quem passava. [...] Os bailes de máscaras tinham derivado dali até aos homens políticos. Naquela noite as discussões sobre a terra da Crimeia, então na ordem do dia, travavam-se ao som das valsas e das mazurcas, nos teatros.

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--]. 2 v. pp. 604-605

Casa de Pasto Águia de Ouro

O Porto urbano do século XIX, mais que um mero pano de fundo para os encontros e os desencontros entre os diferentes extratos sociais, possibilita a formação de uma intrincada rede em espaços claramente referenciados, como é, por exemplo, o centro da cidade. Desse modo, o autor imprime um movimento dinâmico à narrativa e, a partir da descrição dos atores, abre espaço para a crítica social.

Mapa da região central da cidade do Porto, onde consta a Rua Nova dos Ingleses

A Rua dos Ingleses diz muito dos interesses políticos e econômicos que implicaram Portugal e Inglaterra por séculos, redundando na interação entre os concidadãos de ambas as nações.   A menção à rua permite ao narrador discorrer sobre a estratificação própria daquela sociedade com uma verve mordaz. Considerada o coração econômico do Porto, por ali circulam de caixeiros a industriais, que se cruzam e se reagrupam segundo a sua condição de classe. É assim nominada porque, antes da construção do Palácio da Bolsa, era nessa via que os negócios com os estrangeiros, notadamente os ingleses, ocorriam à vista de todos:

Havia grande atividade na larga rua, chamada dos Ingleses à hora em que o filho de Mr. Whitestone ali chegou. A vida comercial estava então no seu auge; numerosos grupos ocupavam os passeios, o centro da rua e os portais das velhas casas, que de um e outro lado a limitam. [...] vê-se uma turba, igualmente numerosa, agitar-se na Praça, sempre a passo rápido, rapazes na maior parte com papeis, sacas ou amostras na mão; saem de um portal para entrar em outro; descem a Calçada do Terreiro em direção à Alfândega, ao cais ou a bordo de algum navio mercante; consultam os indivíduos dos grupos que já mencionamos, ou aguardam pacientes que eles os descubram e interroguem; dirigem-se-lhes, então, tirando o chapéu – atenção nem sempre retribuída –: estes são os segundos caixeiros, os chamados de “fora”, os praticantes de escritório, os cobradores, e ainda os despachantes; aqueles, enfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga da vida do comércio e que menos proventos auferem dela. Distinguem-se pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser incômoda de ver-se.

 

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--]. 2 v.  pp. 649-650

Rua dos Ingleses – centro comercial do Porto

O narrador mapeia a área, subdividindo-a em microrregiões estreitamente implicadas com o perfil de seus habitantes. Enquanto caminha pelas ruas, ele exercita a flânerie e sinaliza as particularidades da cidade, a abrigar diferentes culturas em áreas nitidamente demarcadas. A partir da descrição dos bairros e das edificações que melhor caracterizam seus donos, detecta nos respectivos territórios a elegância e a sobriedade inglesas, o tradicionalismo português e até o perfil kitsch dos patrícios que retornam da América, em geral enriquecidos, e são alcunhados pejorativamente como “brasileiros”:

Esta nossa cidade — seja dito para aquelas pessoas que porventura a conhecem menos — divide-se naturalmente em três regiões, distintas por fisionomias particulares. A região oriental, a central e a ocidental.

No primeiro predominam a loja, o balcão, o escritório, a casa de muitas janelas e de extensas varandas, as crueldades arquitetónicas, a que se sujeitam velhos casarões com o intento de os modernizar; o saguão, a viela independente das posturas municipais e à absoluta disposição dos moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de polícias; as ruas em cujas esquinas estacionam galegos armados de pau e corda e os cadeirinhas com o capote clássico; as ruas ameaçadas de procissões, e as mais propensas a lama; aquelas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Há ainda neste bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as aparências modernas que revestiu.

O bairro oriental é principalmente brasileiro, por mais procurado pelos capitalistas que recolhem da América. Predominam neste umas enormes moles graníticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo — azul, verde ou amarelo, liso ou de relevo; o telhado de beiral azul; as varandas azuis e douradas; os jardins, cuja planta se descreve com termos geométricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro, com o nome do proprietário e a era da edificação em letras também douradas; abunda a casa com janelas góticas e portas retangulares, e a de janelas retangulares e portas góticas, algumas com ameias, e o mirante chinês. As ruas são mais sujeitas à poeira. Pelas janelas quase sempre algum capitalista ocioso.

 

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--]. 2 v. p. 621-622

Enquanto o centro da cidade concretiza o espaço público e concentra a pluralidade de classes sociais, as áreas residenciais, codificadas segundo o conceito de “morar bem”, definem o lugar dos seus habitantes na hierarquia social e promovem o trânsito do público para o privado. Haja vista o contraponto dos bairros populares com aquele onde residem Mr. Whitestone e seus filhos:

O leitor, que é do Porto, quase me dispensa de dizer-lhe que era o bairro de Cedofeita aquele onde a família Whitestone vivia. [...] O bairro ocidental é o inglês, por ser especialmente aí o habitat destes nossos hóspedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de roxo-terra, de cor de café, de cinzento, de preto... até de preto! — Arquitetura despretensiosa, mas elegante; janelas retangulares; o peitoril mais usado do que a sacada. — Já uma manifestação de um viver mais recolhido, mais íntimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo dos jardins; jardins assombrados de acácias, tílias e magnólias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas. Chaminés fumegando quase constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguém pelas janelas. Nas ruas encontra-se com frequência uma inglesa de cachos e um bando de crianças de cabelos loiros e de babeiros brancos. [...] É claro, pois, que era neste último bairro que residia o ilustre Mr. Richard e a sua família.

 

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--]. 2 v. p. 621-622

Distingue-se a Cedofeita das demais regiões, por ser uma área nobre, onde reside a família do patrão. O termo “ilustre” modaliza a personagem e estende-se a todo o bairro, cujo cenário reflete o requinte daqueles que pertencem a um extrato superior.

São os moradores ingleses chamados de “hóspedes” pelo narrador, o que nos permite colher mais uma informação com viés sociopolítico.  Os séculos de “parceria” entre ingleses e portugueses ajudaram a consolidar uma sutil estrutura de dominação que se reflete espacialmente.  Mesmo que o quadro geopolítico espelhe a assimetria entre os atores, a afabilidade dos anfitriões – no caso, os portugueses – sugere a consciência que têm da contribuição estrangeira para a economia local, a começar pela geração de empregos.

Por ser Mr. Whitestone um empreendedor, goza dos privilégios de classe e dispõe de um quadro de funcionários, dentre os quais Manuel Quintino. O guarda-livros goza de uma posição invejável na hierarquia da empresa, o que pressupõe uma qualificação compatível com a importância do cargo que ocupa.  Por conseguinte, sua habitação privilegia o quesito “conforto”; o bem mais caro para as classes médias:

Manuel Quintino habitava em uma rua próxima do extremo ocidental da cidade, afastada assim do maior bulício dela [...] ao declinar da tarde, entrava-lhe no coração a nostalgia doméstica; começava a odiar o escritório, a rua dos Ingleses, o burburinho das praças e a suspirar, como o expatriado, pela alegria do regresso; extasiava-se em ver de casa descer o astro do dia, e sumir-se no oceano, espetáculo magnífico, ao qual da varanda da sala de jantar assistia com o prazer do expectador que de um camarote de frente presencia fascinado a vista final da glória de um drama sacro.

 

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--]. 2 v. p. 689

Nesse ínterim, Cecília e Carlos se esbarram à saída de um baile de carnaval e se apaixonam sem que as famílias o percebam. A melancolia da filha leva o guarda-livros a imaginá-la como o sintoma da mesma doença que vitimou a sua mulher. Para afastar o mau agouro, ele se insere na malha urbana e, ainda que por breve tempo, torna-se um flâneur, enquanto caminha e dialoga com a paisagem. Ao chegar à Ribeira salta à vista do leitor um dentre os mais significativos pilares da economia lusa, porque sendo esta uma região costeira por excelência, a rotina dos habitantes passa pelo movimento das marés a regular o mercado pesqueiro e as suas próprias vidas:

[Manoel Quintino] atravessava a cidade até a Ribeira; seguia depois pela margem direita até Campanhã; chegado ao Esteiro, tomava pela estrada de cima, que o levava ao jardim de S. Lázaro, e enfim recolhia-se à casa. [...] A primeira diversão operou-a só à vista do mercado de peixe, na Ribeira. As lanchas valboeiras tinham naquele instante chegado ao cais. As regateiras, os compradores particulares e os pescadores que vendiam, animavam o mercado com movimento e vozearia.

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--]. 2 v, p. 759

Antigo Mercado do Peixe, onde atualmente está situado o Palácio da Justiça.

Ainda que se distraia momentaneamente com o calor da refrega, Manuel Quintino segue a esmo, até se deparar com mais um acidente geográfico de forte valor simbólico. Passadas as lutas liberais dos anos 30, o Mosteiro de Santo Agostinho da Serra do Pilar constitui-se em memória viva do Cerco do Porto; episódio que o narrador, completamente simpático à causa liberal, resgata.:

Mais adiante, tendo passado a última casa, que lhe tolhia a vista do rio e da margem oposta, volveu naturalmente os olhos para o vulto escalvado e sombrio da serra do Pilar, coroada pelo seu convento em ruínas e a sua base circular. Os tristes vestígios das guerras civis estão ainda naquele lugar muito evidentes, para que a lembrança delas não acuda súbita ao espírito de quem quer que o contemple por momentos. Manuel Quintino, como quase todos os portuenses da sua idade, havia sido mais do que simples espectador das cenas trágicas dessas memoráveis épocas.

 

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--].2 v, p.759-760

Ruínas do Mosteiro da Serra do Pilar, retratadas pelo escocês Frederick Willian Flower, entre 1849 e 1859

Em seguida, chega à fonte do Carvalhido, ainda hoje conhecida, segundo o Arquivo Municipal do Porto, como fonte Nove de Julho, da Falperra ou do Cano: “Ao chegar à fonte do Carvalhido, subiu uns degraus de pedra que ali há, e bebeu, mesmo do caneiro, alguns goles de água; coisa que nunca se esquecia de fazer, porque tinha fé particular nas virtudes medicinais daquela excelente água."

(DINIS, Júlio. Obras Completas.Porto: Lello & Irmão Editores, [19--].2 v, p.759-760)

Fonte da Rua 9 de Julho, na esquina da Rua dos Arcos (atualmente Rua António Enes)

O guarda livros, absorto em suas aflições, afasta-se do perímetro urbano e chega à “quinta chamada da China um dos passeios favoritos das classes populares portuenses.” ainda hoje um ponto turístico da região. Esse afastamento do centro para o arrabalde possibilita um espaço de suspensão, no qual Manuel Quintino, enquanto reflete sobre as diferenças entre campo e cidade, escapa das questões domésticas:

Chegou ao ponto da margem chamado Rego Lameiro. Aí opera o Douro uma das suas súbitas e surpreendentes transformações. Expiram as colinas fronteiras de uma e de outra margem, interrompidas por um vale deliciosíssimo, onde a vegetação é mais abundante, mais povoadas as verduras, e onde se incorporam em riachos as águas escoadas dos próximos declives. Apreciam-se tão raros intervalos em que o Douro, o severo Douro, sorri, como se aprecia um raio de alegria em rosto habitualmente carregado. [...] Os olhos descobrem de um lado o extenso areal de Quebrantões, ao qual sucedem prados e lezírias sempre verdes, veigas fertilíssimas, arvoredos espessos e, escondidas por o meio, as risonhas casas de algumas pequenas povoações campestre; adiante as quintas da Pedra Salgada, e através do véu azulado da distância a aprazível aldeia de Avintes; do outro lado o palácio do Freixo com seus torreões e balaustradas, e as quintas e ribeiras de Valbom e Campanhã.

 

DINIS, Júlio. Obras Completas. Porto:

Lello & Irmão Editores, [19--].2 v, p.761

Vista aérea do estuário do Douro, Rio Douro, Porto.

Manuel Quintino compreende que “a paisagem compensa bem os privados de gozar as belezas mais celebradas por viajantes e poetas, as análogas das quais só a nossa cegueira nos não deixa às vezes a ver a dois passos da porta.” A mudança de horizontes refere a mobilidade social, que possibilita, ao final da narrativa, que os filhos do patrão e do empregado venham a se casar.

Como pudemos perceber nesse passeio pelo Porto com Júlio Dinis, a paisagem fala. Ela fala da situação política de Portugal, em determinada época (as lutas liberais); fala de costumes e tradições do povo (os pescadores, na Ribeira); fala de condição e classe, quando somos sabedores do que se passa nos lugares públicos (a Bolsa de Valores) e privados (as casas de ingleses, portugueses e “brasileiros”).

Por isso, o autor investiu tanto nas descrições, no correr da narrativa: para nos brindar com uma visão pormenorizada da paisagem portuense. Paisagem essa que se torna referência de tempo e lugar, graças à intervenção humana, que constrói e demole monumentos e logradouros, refazendo ou modificando a malha urbana, e faz da Cidade Invicta motivo de orgulho para seus habitantes e, por conseguinte, para todos os portugueses.

Elisabeth Fernandes Martini