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Mercadores e tavernas: tristeza na Lisboa de Gil Vicente

Ó travessa zinguizarra

de Mata Porcos escura

como estás de má ventura

sem ramos de barra a barra.

Tens há tantos dias

as tuas pipas vazias

os tonéis secos em pé?

Ou te tornaste Guiné

ou o barco das enguias

 

Certamente o nome “Gil Vicente” soa familiar a maior parte dos leitores contemporâneos. Da compilação de suas obras, que abarca mais de 40 textos, alguns são mais íntimos do público em geral, como O Auto da Barca do Inferno e Farsa da Inês Pereira; outros, nem tanto, como os Auto da Sibila Cassandra e de Mofina Mendes . Gil Vicente produziu, por mais de 30 anos, seu trabalho artístico e literário e é impossível dissociá-lo das mudanças ocorridas em Portugal, na época das Grandes Navegações. Olhar para este contexto auxilia sobremaneira na compreensão da obra vicentina sem, no entanto, encerrá-la.

Gil Vicente é uma voz vinda do século XVI. Para ouvi-la precisamos aprimorar nossos ouvidos; procurar novos significados e instrumentos. É preciso, diante dos seus textos, não ter pressa, nutrir nossa curiosidade, tal como um navegante que está em busca de novos mundos. Para buscar a paisagem quinhentista, sobretudo a de Lisboa escondida em Gil Vicente, por vezes, é preciso remover pedras e vasculhar ruínas , como nos ensinou o arquiteto Manuel da Maia.

Gravura: Vista de Lisboa. J. Braunio

A Lisboa do século XVI era o centro dinâmico, principal entreposto comercial e contato do reino português com o mundo. Apresentava um vertiginoso crescimento que favorecia o interesse migratório para suas terras. Não se tem números exatos quanto ao contingente populacional, mas estima-se que já contava com uma população de mais de 100.000 habitantes nesta época.  Esse número parece mais expressivo quando comparado com outras cidades importantes também do reino português, como Porto e Coimbra, as quais possuíam, no início do século XVII, entre 15.000 e 20.000 habitantes, respectivamente, segundo historiadores.

Para Lisboa emigram muitos estrangeiros, vindos de nações e regiões afastadas, atraídos pela bondade do clima, e , deixando o torrão natal e  os cuidados da pátria.(Damião de Góis)

 

Esta cidade foi vitimada pelos terremotos de 1531 e 1755 e a memória das representações físicas deste espaço, anterior a estes eventos, pode ser revisitada por meio dos desenhos, das iluminuras, das gravuras, das pinturas, bem como por meio das fontes literárias e crônicas da época.

Pintura- Terremoto de 1755. João Glama.Séc. XVIII.

Como cidade portuária, as panorâmicas de Lisboa, em sua maior parte, são representadas a partir do mar.

A face da Ribeira fica em evidência na maior parte dessas representações. A Ribeira é a zona onde o espaço físico (urbs) encerra também a dimensão social (civitas). Neste espaço prevalecem a topografia acidentada e os ofícios ligados às atividades marítimas – consideradas as características principais da cidade de Lisboa, desde os tempos das grandes navegações.  Além, é claro, do intenso comércio com representantes de vários países, como se vê no díptico da Rua Nova dos Mercadores .

Pintura - Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa. Autor anônimo,

Séc. XVI. Londres, Kelmscott Manor Collection – Society of Antiquaries of London.

(uma tela original, hoje dividida em duas).

Ilustração – Rua Nova dos Mercadores:

Reconstituição segundo o Livro de Horas de D.  Manuel. Roque Gameiro.

Na obra vicentina não é raro encontrar os tipos que povoam as estreitas ruas olisiponenses. Eles são representados, por exemplo, pelos ofícios: os médicos retratados no Auto dos Físicos , o ourives na Farsa do Almocreve, o marinheiro e o piloto no Triunfo do Inverno. Não se pode esquecer do vasto grupo de personagens femininas: pastoras, regateiras, taverneiras e alcoviteiras. O texto que apresenta um número expressivo de ofícios exercidos pelas mulheres é a Comédia de Rubena, nas figuras da parteira, da ama e das criadas.

Está üa lavrandeira

Lá no bairro sobre Alfama,

Que mais parideira dama

Não há i mais parideira.

(Gil Vicente, Comédia da Rubena)

Nesta Lisboa, o corpo feminino de origem popular deambula pelas artérias da cidade vendendo ervas, hortaliças, leite e queijo na Ribeira; estripando peixes e assando sardinhas; carregando potes de água na cabeça para vendê-la de porta em porta. Essas mulheres se misturam à paisagem da principal cidade do reino. Pode-se dizer que Gil Vicente está atento aos aspectos materiais e imateriais que a constroem.

 

O Pranto da Maria Parda é visto como a “grande obra lisboeta”  do dramaturgo português. A personagem que dá título ao texto lamenta pelas ruas a falta de vinho nas tabernas. Com efeito, em muitas passagens, traz à memória os tempos em que a bebida não lhe faltava. Diferentemente de boa parte das peças vicentinas que apresenta nas suas rubricas  a data e a festividade a que se relaciona a apresentação, O Pranto da Maria Parda foi datado no interior do texto:

E ante de meu finamento

ordeno meu testamento

desta maneira seguinte

na triste era de vinte

e dous desd’o nascimento

Seguramente, dois fatos contribuem para este retrato de Lisboa “no triste ano de 1522”. Frei Luis de Sousa, na obra Anais de D. João III, nos diz que:

E em Lisboa se poderia já tanto ao Outubro de 21, que aconteceo passarem muytos homens oyto dias sem tocar pão, comendo só carnes e fruitas. E por Janeiro e Fevereiro do anno de 22 em que vamos, se averiguou morrerem muytos pobres á pura fome pollas ruas e alpenderes de Lisboa

(Frei Luis de Sousa)

Em dezembro de 1521, além da carestia que assolava Lisboa, Dom Manuel, que se encontrava no Paço da Ribeira juntamente com sua corte, conforme descreve Damião de Gois na Crônica do Felicíssimo Rei D. Manuel, foi acometido por uma “febre specia de modorra; doença de que naquelle tempo em Lisboa morria muita gente” e veio a falecer no dia 13 de dezembro, após grande delírio, recitando“ em alta, e clara voz, dizia os versos dos Psalmos, de que muitos sabia de cor”.

Maria Parda tem um nome, mas muito se aproxima daqueles anônimos que morreram desde o final de 1521, em virtude da carestia dos alimentos:

Eu so quero prantear

este mal que a muitos toca

As impressões posteriores das folhas volantes do texto vicentino coincidiram com períodos em que a população de Lisboa sofreu não só com a escassez de abastecimento de alimento, mas com o excesso de cobrança das cargas tributárias, o que corrobora a apresentação de Pranto da Maria Parda em tempos de crise, bem como a atualidade do tema exposto pelo texto que, anos depois, ainda prevalecia no gosto popular.

O fólio presente no Livro de Horas de D. Manuel simultaneamente nos transporta para o cortejo fúnebre de D. Manuel e para a Rua Nova dos Mercadores, em 1521.

Iluminura – Livro das Horas de Dom Manuel

Mas é pela pena de Gil Vicente que nos transportamos, oportunamente, para o cortejo fúnebre de Maria Parda, em 1522, e percorremos da zona portuária, a Ribeira, até as adjacências da Mouraria. O cenário deste popular texto vicentino é a própria cidade de Lisboa.

1-  Paços do castelo

2 – Mosteiro Santa Maria da Graça

3 – Mosteiro de São Vicente

4 – Escola Geral

5 – Igreja de Santo Estevão

6 – Porta do Charafiz (ou Chafariz?) de Cavalos

7- Sé Velha de Lisboa

8 – Porta da Ribeira

9 – Rua Nova dos Mercadores

10 – Paço da Ribeira

11 – Igreja de São Julião

12  Hospital de Todos os Santos

13- Porta da Mouraria

14 – Porta do Corte-Real

15 – Santuário do Corpo-Santo

16 – Praça dos Canos

Gil Vicente é um autor conhecido por misturar diversos gêneros textuais em uma única obra. No Pranto da Maria Parda, ele subverte a estrutura normativa do pranto; entremeia o diálogo, por meio de um jogo retórico, de provérbios populares; e finaliza com um testamento de teor báquico .

Especialmente no Pranto que Maria Parda, traça um itinerário das ruas de Lisboa, as quais possuíam tavernas e apresentavam, antes do período de carestia, as ramas nas portas como ornamento e sinônimo de pipas cheias de vinho. O texto nos indica que a sua procura se inicia pela Ribeira – área de importância administrativa, bem como de grande fluxo de pessoas e informações. Não há dúvidas de que o número de tavernas na região era significativo, devido ao consumo elevado de vinho, tanto por ser um elemento comum à alimentação da população da época, sem distinção de estratos sociais, quanto por suas propriedades medicinais, sendo, comumente, seu consumo receitado pelos físicos (médicos). Esta grande demanda pode ser exemplificada, por exemplo, pelo grande número de pessoas que se dedicavam ao ofício nas tavernas.

A primeira referência de Maria Parda é a Rua Sam Gião, presente nas artérias da Judiaria Velha de Lisboa.

A -  Região de Rua cata-que-farás

Rua de Cata Que Farás

que farei e que farás?

Quando vos vi tais chorei

Que foi de vosso bom vinho?

E tanto ramo de pinho laranja, papel e cana

 

B - Região Rua Sam Gião e Travessa Mata Porcos

Ó rua de sam Gião [...]

Quem levou teus trinta ramos

[...]

  Ó travessa zinguizarra

de Mata Porcos escura

como estás de má ventura

sem ramos de barra a barra.

Tens há tantos dias

as tuas pipas vazias

os tonéis secos em pé?

 

C - Região da Rua da Ferraria

Ó rua da Ferraria

onde as portas eram maias

como estás chea de guaias

com tanta louça vazia.

Já me a mi aconteceu

 na menhã que Deos naceu

à honra do nacimento

beber ali um de cento

que nunca mais pareceu

 

D - Ribeira – Praça dos Canos

Fui-me ò Poço do Chão

 fui-me à praça dos Escanos

carpi-vos manas e manos

que a dezasseis o dão.

Ó velhas amarguradas

que antre três sete canadas

 soíamos de beber

agora tristes remoer

ete raivas apertadas

E - Parte da região de Alfama

Quem viu nunca toda Alfama

com quatro ramos cagados

os tornos todos quebrados?

Ó bicos de minha mama

Bem ali ò Santo Esprito

 i’eu sempre dar no fito

 num vinho claro rosete.

Ó meu bem doce palhete

 quem pudera dar um grito

 

F - Parte da Região da Mouraria

Ó rua da Mouraria

quem vos fez matar à sede

pela lei de Mafamede

com a triste d’água fria?

 

G -  Região Poço de Borratém

Olha de molher de bem

 dizem que em tempo de figos

 nam hei i nenhuns amigos

nem os busque entam ninguém

 E diz o enxemplo dioso

que bem passa de goloso

o que come o que no tem.

Muita água há em Borratem

e no Poço do Tinhoso

A Judiaria Velha de Lisboa

A personagem lamenta que a rua não ostente mais os trinta ramos pendurados nas suas portas. Nos versos seguintes, ela nos conduz à vizinha e zinguizarra Travessa de Mata-porcos, que lhe parecia irreconhecível sem os ramos que a adornavam de barra a barra e que tem agora as pipas vazias e os tonéis secos em pé.

Ó rua de sam Gião [...]

Quem levou teus trinta ramos

 

Ó travessa zinguizarra

de Mata Porcos escura

como estás de má ventura

sem ramos de barra a barra.

Tens há tantos dias

as tuas pipas vazias

os tonéis secos em pé?

Triste também é se deparar com a Carniceria Velha, que agora passa por um período de privação, tal como na Quaresma, nas suas grelhas a carne é substituída pelo peixe: Triste quem nam cega em ver nas Carnecerias Velhas muitas sardinhas nas grelhas.

Seu passo trôpego sobe a rua da Ferraria, talvez à altura da Igreja de Santa Madalena:

Ó rua da Ferraria

 onde as portas eram maias

como estás chea de guaias

com tanta louça vazia.

Já me a mi aconteceu

 na menhã que Deos naceu

à honra do nacimento

beber ali um de cento

que nunca mais pareceu.

Maria Parda despede-se nesta rua da Judiaria Velha. No verso, a referência às maias pode ser pelo costume popular de trazer essas flores às portas ou uma referência aos cultos pagãos ligados à fertilidade e à entrada de um novo ano agrícola, tradicionalmente realizados no mês de maio. Antes, pelo contrário, o que Maria Parda encontra não é o indício de um período de festividades, ou auspícios de uma boa colheita, mas um sítio coberto de choros e lamentações.

Cambiante, move-se até a rua Cata-que-farás, à altura do Palácio Corte-Real, mas o cenário é igualmente desolador:

Rua de Cata Que Farás

que farei e que farás?

Quando vos vi tais chorei

 Que foi de vosso bom vinho?

E tanto ramo de pinho laranja, papel e cana

A vivacidade das ruas da Ribeira com seus comerciantes e povos de todo mundo, dá lugar, pelas lentes de Maria Parda, a um sítio condenado ao abandono:

Ó tavernas da Ribeira nam vos verá

a vós ninguém

mosquitos o Verão que vem

porque sereis areeira .

Quem viu nunca toda Alfama

com quatro ramos cagados

os tornos todos quebrados?

Ó bicos de minha mama

Bem ali ò Santo Esprito

 i’eu sempre dar no fito

 num vinho claro rosete.

Ó meu bem doce palhete

 quem pudera dar um grito

Saudosa do bairro da Alfama, Maria Parda nos indica que nesta região era possível encontrar um vinho rosete que muito apreciava, e lamenta a falta do seu doce palhete.

A vista de Lisboa do período manuelino nos leva à Rua do Forno, que está localizada perto da Igreja de São Cristóvão. Não estamos certos, todavia, se esta é a rua de que nos fala a seguir Maria Parda.

Ó triste rua dos Fornos

que foi da vossa verdura?

Agora rua d’amargura

Deve-se considerar, neste contexto que, ainda aturdida por suas necessidades, igualmente a rua do Forno poderia remeter a uma lugar na Ribeira, posto que, antes de ir à Mouraria, a personagem  ainda percorre do Poço do Chão à Praça dos Canos:

Fui-me ò Poço do Chão

 fui-me à praça dos Escanos

carpi-vos manas e manos

que a dezasseis o dão.

Ó velhas amarguradas

que antre três sete canadas

 soíamos de beber

agora tristes remoer

ete raivas apertadas.

 

Ó rua da Mouraria

quem vos fez matar à sede

pela lei de Mafamede

com a triste d’água fria?

É na principal rua do bairro dos Mouros que Maria Parda expressa o seu esgotamento, diante de caminhada tão extenuante. Afinal, os muçulmanos são proibidos de consumir bebida alcoólica por motivo religioso. Todavia, Gil Vicente ainda brinca com sentidos das palavras. O público certamente gargalha ao ver a velha arrancar os cabelos e pelos que traz no queixo, devido ao desespero por falta de vinho. Mas o verso de carpir estas queixadas também sugere que Maria Parda está cansada de se lamuriar.

A matéria acerca da paisagem na obra de Gil Vicente, bem como em outros autores quinhentistas, ainda é um terreno pouco explorado, mas é sobremaneira importante para o conhecimento do contexto social e intelectual desta época. Época de grandes fluxos migratórios, de novidades na forma da organização das cidades e da informação. Acreditamos que Gil Vicente estava atento a essa paisagem, tanto que notamos a incorporação desses elementos à sua obra.

Maria Parda vai morrer, não sem antes mendigar aos taverneiros uma última canada. Todos negam. Cada um desses taverneiros é uma imagem que reflete a grande diversidade étnica, cultural e linguística daquele meio. Os provérbios, as metáforas economicistas fazem parte daquele cotidiano e Maria Parda não é voz única, em meio à paisagem. Em Lisboa, naquele “triste ano de 1522”, muitos só desejam prantear, pois existe um mal que a muitos toca.