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A Rainha vai nua: a cidade da Covilhã despida por Ferreira de Castro

Na Covilhã ainda é pior – afirmou Júlia. – Aqui, alguns ainda amanham as suas territas. Mas na Covilhã é tudo à força de dinheiro. Fui lá a semana passada visitar a minha cunhada e vi que as mulheres de lá não sabem o que hão-de fazer à vida. O que os homens delas ganham não chega para comer e elas têm tudo no prego.

 

CASTRO, Ferreira de. A lã e a neve. 15.ed.

Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 239-240.

Montes Hermínios (Covilhã), incêndio de 2017 (autor Gabriel AV )

Para comemorar um século do seu estatuto de cidade, a Covilhã, em 1970, recebeu como presente uma canção que a cristalizou dentro da “dimensão perfeita do universo épico”; noutras palavras, a música em questão foi determinante para que, no imaginário de Portugal, a cidade da Covilhã tenha ficado conhecida com aquilo que é, provavelmente, o seu mais famoso epíteto, ou seja, “Cidade Neve”. Isso foi possível, sobretudo, pelo facto dessa canção ter sido encomendada para que fosse estreada na voz da Amália Rodrigues, cujo prestígio resultou ser o fator determinante para garantir a imortalidade do nome da Covilhã na memória coletiva do povo português.

Covilhã em 2016 – “Cemitério Branco” (Gabriel AV)

Se existisse uma versão mais extensa do texto da música “Covilhã Cidade Neve”, possivelmente seria o mesmo romance de Ferreira de Castro, cujo título A lã e a neve logo evoca dois elementos que são profundamente ligados à cidade. Porém, o autor português retratou no seu romance uma Covilhã que, contrariamente às idílicas imagens da cidade que seriam cantadas algumas décadas mais tarde, apresentava uma realidade, em muitos aspetos, desoladora.

Olhando para a situação atual, apesar da Covilhã ter sofrido durante o decorrer dos anos algumas alterações, é impressionante de como a maioria das paisagens urbanas d’A lã e a neve sigam inalteradas, não deixando, portanto, os seguintes excertos de serem um espelho da realidade que a cidade apresenta hoje em dia:

Cidade pequena, acolhedora e pacata, a Covilhã dormia. O seu próprio centro dir-se-ia abandonado. Somente no Pelourinho, Horácio lobrigou uns vultos que, falando, metiam à Rua Direita. O velho edifício filipino, onde se instalavam os Paços do Concelho, parecia golfar, através do arco que dava entrada para a Rua 1.º de Dezembro, um denso mistério de outrora. E, mais adiante, as casas construídas sobre as antigas muralhas da cidade mostravam-se numa confusão de burgo pretérito, onde os camartelos renovadores não haviam conseguido fazer olvidar todos os séculos passados com suas noites infindas.

 

CASTRO, Ferreira de. A lã e a neve. 15.ed.

Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 297.

Covilhã em 2017 – “Vidas devolutas” (Gabriel AV)

No ano de 1999, José Hermano Saraiva tinha profetizado que, se a Covilhã e os dois concelhos próximos – de Fundão e de Belmonte – continuassem a seguir o mesmo ritmo de crescimento que ele observara naquela altura, nasceria no interior de Portugal, ao cabo de vinte anos, “uma enorme mancha urbana”; e que – apesar de Saraiva acreditar que esses três municípios nunca se juntariam entre eles, devido ao orgulho bairrista que carateriza as terras da Beira Baixa – a tal mancha acabaria por transformar-se, ao lado de Lisboa e do Porto, no terceiro maior aglomerado urbano de Portugal. Porém, a Covilhã continua a ser, de momento, uma cidade de dimensões relativamente reduzidas, onde a maioria das pessoas conhece umas às outras, mantendo apenas o seu caráter bairrista.

 Se bem que a Covilhã, ao longo da sua história, tenha construído grande parte da própria fama encima da tradicional ligação que o povo que a habita possui com a pastorícia e a tecelagem, hoje o panorama está radicalmente mudado: com efeito, a Rainha das Beiras teve que colocar de lado o cajado e o novelo para se dedicar ao estudo. A Universidade da Beira Interior (UBI) representa, atualmente, um importante ponto de apoio sobre o qual a Covilhã depositou as próprias esperanças para prevenir um possível esvaziamento da cidade; pois, se tivermos em consideração o facto que a maioria dos lanifícios já encerrou há décadas e que se a Universidade de Beira Interior deixasse hipoteticamente de existir, com toda probabilidade, a Covilhã seria hoje esquecida do mapa de Portugal e do mundo.

 Essas considerações foram levantadas apenas para colocar quem está a ler na condição de saber qual é, efetivamente, a situação corrente na Covilhã. Entretanto, para continuarmos com o nosso paralelismo entre a condição atual da cidade e os excertos retirados do romance de Ferreira de Castro, é necessário colocar-se na ótica de, adaptando o conteúdo do enredo à realidade da Covilhã de hoje em dia, imaginar que os que foram no romance os operários fabris sejam os estudantes universitários no tempo presente:

A noite estava quente. No labirinto proletário da cidade, muitos dos moradores, fugindo ao calor que os sufocava nas baiúcas onde habitavam e aos parasitas que lhes chupavam o sangue, haviam posto as enxergas sobre o chão das vielas e, como era seu costume, todos os anos, naquela época, dormiam ao ar livre da madrugada. Horácio ia andando por entre esses velhos colchões cheios de figuras que ressonavam, como em acampamento improvisado junto de destroços feitos por uma catástrofe. E cada vez ele sentia mais angústia, cada vez se sentia mais desamparado na noite, nos seus desejos, em toda a sua vida. Tramagal dissera que as casas não chegavam a ser sete por cada mil pessoas que precisavam delas. Assim, que esperanças podia ele ter?

CASTRO, Ferreira de. A lã e a neve. 15.ed.

Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 296.

  Covilhã em 2017 – “Onde nós dormimos” (Gabriel AV)

É preciso especificar que, mesmo que as condições atuais em que os estudantes se encontram a viver não sejam tão extremas como as dos operários d’A lã e a neve, contudo, existem ainda diversas situações críticas, a nível habitacional, na cidade. Por outro lado, se considerarmos que a Covilhã possui uma série de caraterísticas muito próprias – pois a região onde se situa garante-lhe inúmeros recursos que constituem o seu maior património – é evidente que existe um imenso potencial a aproveitar para o benefício da cidade. Portanto, se esses recursos – que destacam a Covilhã de maneira significativa entre as outras cidades portuguesas – forem aproveitados consciente e sabiamente, não cabe dúvida que na “cidade-neve” haveria mais incentivos para que os estudantes não passassem apenas por ela, mas também se estabelecessem para lhe implementarem melhorias e renovações. Entretanto, para que tudo isso aconteça, é necessário que o governo local se mobilize para criar umas condições mais favoráveis, sendo que essas nem sempre são as primeiras preocupações da autarquia; de resto, tudo isso já tinha sido denunciado por Ferreira de Castro no seu romance, como é evidente no excerto a seguir:

As casitas estavam quase prontas, branquinhas, airosas, soalheiras e até em cada um dos seus quintalejos havia já sido plantada uma árvore de fruto. [...]. Entretanto, correra que a Câmara Municipal não construiria mais vivendas económicas. Ao ouvir isso, Horácio duvidou. Como podia ser, se tinham sido feitas apenas setenta casas e só os operários dos lanifícios eram seis mil? Dias depois, porém, ele verificava que os cabouqueiros, pedreiros e carpinteiros haviam desaparecido dos Penedos Altos  e principiado a edificar uma nova fábrica, próximo do hospital. As sobras dos materiais de construção tinham sido, também, retiradas dali. O novo bairro apresentava-se limpinho, com ar de sítio onde não havia mais nada a fazer.

 

CASTRO, Ferreira de. A lã e a neve. 15.ed.

Lisboa: Guimarães Editores, 1900. p. 291.

Hoje, tristemente, esses bairros da Covilhã continuam a apresentar-se como “airosos e soalheiros” apenas na ficção de Ferreira de Castro porque, na vida real, eles estão num estado de abandono e degrado total. Um claro exemplo disso pode-se admirar percorrendo as ruazinhas do antigo Bairro da Alegria, que, por ter sido edificado para dar hospedagem aos operários dos lanifícios covilhanenses, seria importante reabilitar para manter vivo não só o património urbano da Covilhã, mas também para valorizar um espaço que é simbólico pela ligação que tem com a história e a tradição da cidade.

Covilhã em 2017 – “Escadaria para um sonho perdido” (Gabriel AV)

O excerto que segue, que se coloca à guisa de conclusão, acaba-se com uma reflexão do protagonista Horácio, e é a partir disso que se quer deixar em aberto o questionamento sobre qual poderia ser o futuro da Covilhã, cidade rica em história e meios para ser uma terra próspera, mas que está abandonada a si mesma. Será, então, que os que passam pela Covilhã deveriam conformar-se e esperar que a Senhora da Conceição se manifeste com um milagre, ou será que a possibilidade de mudança está nas mãos de todos aqueles que a querem realizar?

 Covilhã em 2017 – “A crença, o derradeiro reduto” (Gabriel AV)

O relógio de uma das igrejas bateu duas horas. [...]. As Portas do Sol estavam solitárias, como as ruas que ele havia calcorreado. [...]. Só o paredão de onde se abarcava a planície se erguia em frente dele. O vale jazia no escuro, mas, à direita, sobre o seu pilar, a Senhora da Conceição, envolta em luz directa, refulgia. Era uma luz verde, de profundidades submarinas, uma luz de sonho; e a imagem dir-se-ia acabada de aparecer, milagrosamente, no negrume da noite, para dominar a noite da terra e das almas e servir de guia aos homens que transitavam na escuridão do grande vale. Horácio contemplou-a um momento e tornou a perguntar a si próprio: «Se ela nos protege depois de mortos, porque não há-de proteger-nos enquanto somos vivos?»

 

CASTRO, Ferreira de. A lã e a neve. 15.ed.

Lisboa: Guimarães Editores, 1990. p. 297.

 Covilhã em 2017 – “Muralhas para pombos” (Gabriel AV)

Com fotografias de Gabriel AV