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Cora Coralina

e a ressignificação da

cidade de Goiás

Amo e canto com ternura

todo o errado da minha terra

 

 CORALINA, Cora.Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.

19.ed. São Paulo: Global, 1997. p. 104

 

 

O que pode um poeta em relação à cidade que ele ama e canta? A pequena cidade de Goiás, antiga capital do estado, não é conhecida pelos bandeirantes que chegaram nas margens do Rio Vermelho na primeira metade do século XVIII em busca de ouro, nem tão pouco pelos governadores que passaram pelo Palácio Conde dos Arcos, mas por Cora Coralina (1889 – 1985), uma poetisa e contadora de estórias que ressignificou a sua cidade natal e a projetou pelo Brasil afora.

Nascida em Goiás em 1889, Cora deixou sua cidade em 1911. Depois de uma ausência de 45 anos vividos no estado de São Paulo, quando voltou, a capital tinha sido transferida para Goiânia e os moradores que permaneceram sofriam as consequências da mudança e partilhavam um certo ressentimento. Nesse momento, o então SPHAN (Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) começava o processo de tombamento de alguns monumentos da cidade, mas o descaso a que estava relegado o patrimônio arquitetônico, que não contava com verbas destinadas à sua restauração e preservação, é dado a ver pela autora:

Fechado. Largado.

O velho sobrado colonial

de cinco sacadas,

de ferro forjado,

cede.

 

Bem que podia ser conservado,

bem que devia ser retocado,

tão alto, tão nobre-senhorial.

O sobradão dos Vieiras

cai aos pedaços,

abandonado.

Parede hoje. Parede amanhã.

Caliça, telhas e pedras

se amontoando com estrondo.

CORALINA, Cora. Velho sobrado.

In: ___. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.

19.ed. São Paulo: Global, 1997. p. 95-96

A partir dessas ruínas, a poetisa recompõe, com emoção, um tempo glorioso do sobrado dos Vieiras. Tempo que remonta à sua mocidade e às práticas sociais da literatura em Goiás no início do século XX, com bailes, saraus e reuniões do Grêmio Literário Goiano, associação a que pertenceu a então jovem escritora que se destacava como cronista, contista e oradora. Tocada pelos restos do velho sobrado que se desmorona e valendo-se da imagem que a memória preservou, ela traz de volta ao presente do poema as personagens que habitavam ou frequentavam o casarão, os aposentos, os móveis, a decoração e os perfumes de flores “de que ninguém mais fala”, reconstruindo, num tempo em que ela é a única testemunha de tempos idos, o edifício e o que ele representou.

Sobrado dos Vieiras, Goiás – GO. Foto do acervo de Antolinda Baía Borges

Cora demonstra um agudo senso de preservação não apenas do patrimônio material, mas também da língua, da memória pessoal e social, dos velhos costumes, da história, enfim, de um patrimônio imaterial que também compõe a cidade. Na sua obra, mantém muitas palavras arcaicas, que eram usadas pela sua bisavó, um dos seus principais mitos pessoais e fonte de uma memória que ela resgata. Também, numa crônica publicada no livro póstumo Villa Boa de Goyaz, sugere ao SPHAN a volta aos nomes originais de ruas e becos e a colocação de placas com esses nomes. Boa parte de sua obra representa ainda e sobretudo um empenho deliberado não só de preservação, mas de revisão das narrativas oficiais, como diz nas palavras endereçadas ao leitor em seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais: “Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do Passado / antes que o tempo passe tudo a raso. / É o que procuro fazer”. Esse passado, que é simultaneamente pessoal e coletivo, está guardado nos espaços da cidade.

Dois espaços desempenham um papel protagonista na obra da autora: a casa natal e os becos.

A casa da escritora, denominada em sua obra Casa da Ponte da Lapa, é o espaço central dos poemas em que ela revisita poética e freudianamente a infância triste e cheia de privações da menina mal amada Aninha.

Quando eu era menina

bem pequena,

em nossa casa,

certos dias da semana

se fazia um bolo,

assado na panela

com um texto de borralho em cima.

 

Era um bolo econômico,

como tudo, antigamente.

Pesado, grosso, pastoso.

(Por sinal que muito ruim)

[...]

Era aquilo, uma coisa de respeito.

Não pra ser comido

assim, sem mais nem menos.

Destinava-se às visitas da noite,

certas ou imprevistas.

Detestadas da meninada

CORALINA, Cora. Antiguidade.

In:___. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.

19.ed. São Paulo: Global, 1997. p. 53-54

Ao estender a caracterização do bolo, “econômico”, a toda uma época em que se situa a infância do eu poético autobiográfico, a poetisa desvela aspectos da economia da velha Goiás. A infância materialmente precária da menina Aninha é exemplar da pobreza que assinala a vida doméstica das famílias vilaboenses de classe média após a abolição da escravatura, obrigadas a economizarem até no feitio do bolo. É também representativa de um imaginário de infância que predominou em Goiás e no Brasil até a primeira metade do século XX e segundo o qual as crianças ocupavam o pior lugar na estrutura familiar, sendo vítimas de castigos corporais e impedidas de comerem satisfatoriamente os quitutes desejados.

Casa de Cora Coralina, 1912, Goiás – GO. Foto do acervo do Museu Casa de Cora Coralina

A casa de Cora Coralina, uma das mais antigas construções de Goiás e exemplar típico da arquitetura setecentista que predomina no centro histórico, fossiliza também, nos seus contos e crônicas, a memória dos escravos que a construíram, da arquitetura colonial, daqueles que a foram habitando e terminam por compor um quadro histórico que vai do Brasil colônia, com a exploração aurífera e o pagamento do quinto real , ao tempo da escritora, “a última sobrevivente de gerações passadas”, a que assume para si a tarefa de ser a guardiã da memória da casa:

CASA VELHA DA PONTE...

Velho documentário de passados tempos, vertente viva de estórias e de lendas [...]

Minha bisavó falava de seus antigos ancestrais.

O primeiro lembrado de outra bisavó – um certo Thebas Ruiz, recebedor dos quintos reais, antes de morrer enterrou no porão da casa ouro avultado, grossas barras, moedas e mais lavrados. Para não seguir preso para Portugal, prevaricador da Real Coroa, sonegador e esbanjador dos Quintos de El-Rei, bebeu seu copo de veneno, tendo antes feito beber ao seu antigo escravo de confiança, que muito sabia e podia contar.

Depois veio um Sangento-mor, bisavô de muitos, português colonial. Um Cônego Couto, liberal e dono de moedas, montes de ouro, prataria. Contava minha bisavó que esse senhor Cônego Couto, feito suas Humanidades em Coimbra, só almoçava sua gorda feijoada goiana em pratos e talheres de ouro. Um capitão da guarda nacional, que dragonou milhares de homens felizes e analfabetos, capitães, majores e coronéis, enfeitados com galões dourados e vitalícios sem percalços de reforma. Um desembargador da Monarquia – meu pai –, minha mãe viúva. Minhas irmãs, eu, afinal a última sobrevivente de gerações passadas.

 

CORALINA, Cora. Estórias da casa velha da ponte.

9.ed. São Paulo: Global, 2000. p. 8-9

Museu Casa de Cora Coralina, Goiás – GO. Foto do acervo do Museu Casa de Cora Coralina

Além de concentrar uma memória pessoal e coletiva, a Casa da Ponte, com seus aposentos individualizados pelo uso e pelo nome, é também o lugar privilegiado em que Cora se situa para ver e inscrever poeticamente a cidade em que ela concentra o mundo:

Na Casa Velha os quartos têm nome: varandinha, quarto escuro, quarto do oratório, alvoca da vó Fiinha, sobradão, sobradinho, quarto de Felizarda.

O quarto donde escrevo chama-se sobradinho. A janela do sobradinho olha o rio e eu, da janela, olho o mundo.

 

 CORALINA, Cora. Maravilhas da Casa Velha da Ponte.

In:___. Villa Boa de Goyaz. São Paulo: Global, 2001. p. 31

 

Cora Coralina na janela da Casa Velha da Ponte, Goiás – GO. Foto do acervo do Museu Casa de Cora Coralina

O visitante que vai a Goiás pode entrar na casa da escritora, Museu Casa de Cora Coralina desde 1989, pode percorrer os aposentos, tomar água na biquinha do porão e contemplar objetos que estão em sua poesia, como é o caso do prato azul-pombinho, peça central de um belo poema lírico-narrativo. Mas a casa que aparece na literatura é mais que essa casa material em que o visitante pode penetrar. É mais que a casa que a poetisa habitou na infância e a que regressou decorridos muitos anos de ausência. É ainda mais que uma casa-lembrança, que sempre habitou a autora, mesmo em sua longa ausência. É uma casa lembrança-sonho reconstruída com palavras.

A casa de Cora, que alimenta a casa de poesia, como várias outras construções típicas do centro da cidade, tem um grande quintal, com um portão que dá para um beco, o Beco da Vila Rica.

O Beco da Vila Rica, juntamente com outros becos da cidade, com as pessoas que os habitavam ou os usavam como vias de acesso (prostitutas, escravos, menino lenheiro etc), com os objetos sem utilidade que a sociedade vilaboense neles jogava (sapatos, bacias, potes, panelas e “outras furadas serventias”) e com os vegetais aí nascidos espontaneamente e vivendo e enflorando sem o cuidado das mãos, são resgatados e dignificados poeticamente:

Conto a estória dos becos,

dos becos da minha terra,

suspeitos... mal afamados

onde família de conceito não passava.

“Lugar de gentinha” – diziam, virando a cara.

De gente do pote d’água.

De gente de pé no chão.

Becos de mulher perdida.

Becos de mulher da vida.

 

CORALINA, Cora. Becos de Goiás.

In: ___. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.

19.ed. São Paulo: Global, 1997. p. 104

Beco do Sertão, Goiás – GO. Foto do acervo do Museu Casa de Cora Coralina

Os becos comparecem centralmente no título do primeiro livro publicado por Cora Coralina, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, e nesse livro há três poemas sobre essas vias urbanas setecentistas (“Becos de Goiás”, “Do Beco da Vila Rica” e “O Beco da Escola”). Mas, mesmo quando recupera outros espaços, pode-se dizer que a sua obra se alicerça numa poética dos becos, pois privilegia os de algum modo marginalizados socialmente. É o que acontece, por exemplo, quando a autora narra em verso uma história ambientada no Palácio Conde dos Arcos, a qual conta não um episódio da vida dos governadores que por lá passaram, mas a história do soldado carajá, um índio civilizado que, um dia, tendo seus atavismos despertados por um trovão, despiu a roupa e a civilidade e sumiu em direção ao Araguaia, rio que forma uma divisa natural entre os estados de Goiás e Mato Grosso e compõe uma das regiões habitadas pelos carajás:

O Palácio dos Arcos

tem estórias de valor

que não quero aqui contar.

Vou contar a estória do soldado carajá.

 

CORALINA, Cora. O Palácio dos Arcos.

In: ___. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.

19.ed. São Paulo: Global, 1997. p. 129-132

Palácio Conde Dos Arcos, 2018, Goiás – GO. Foto do acervo de Solange Fiuza

Os becos assumem, portanto, na poesia de Cora Coralina, uma dimensão simbólica extensiva à toda a cidade. Contar a estória dos becos é contar a estória da cidade que não foi contada.

A autora retira os elementos que integram a sua poética, ou seja, a forma de sua poesia, da cidade, que não só contém os becos, mas também os continua simbolicamente. No segundo poema de seu livro de estreia, ela se apresenta à sua cidade, funde-se a ela e nela reconhece as raízes de sua estética:

Goiás, minha cidade...

Eu sou aquela amorosa

de tuas ruas estreitas,

curtas,

indecisas,

entrando,

saindo

umas das outras.

Eu sou aquela menina feia da ponta da Lapa.

Eu sou Aninha.

 

Eu sou aquela mulher

que ficou velha,

esquecida,

nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,

[...]

Eu sou estas casas

Encostadas

cochichando umas com as outras.

[...]

Eu sou a dureza desses morros,

revestidos,

enflorados,

lascados a machado,

lanhados, lacerados.

Queimados pelo fogo.

Pastados.

Calcinados e renascidos.

Minha vida,

meus sentidos,

minha estética,

todas as vibrações

de minha sensibilidade de mulher,

têm, aqui, suas raízes.

 

CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais.

19.ed. São Paulo: Global, 1997. p. 47-49

A poetisa se dirige direta e amorosamente à cidade, estabelecendo com ela uma relação de pertença e identificando-se com sua paisagem urbana (ruas e casas) e natural (morros e vegetação). A cidade possibilita a superposição do tempo, de modo que a velha poetisa encontra a menina de outrora, atando as duas pontas da vida. Os adjetivos usados para caracterizar os “eus” passado e presente da escritora (“menina feia”, “mulher que ficou velha”), a paisagem urbana (“becos tristes”, “ruas estreitas, / curtas, / indecisas”) e natural (morros “lascados a machado, / lanhados / lacerados. / Queimados pelo fogo / Pastados. /Calcinados”) evidenciam o precário valor social desses elementos. Mas todos resistem e renascem como os morros anualmente queimados no período das secas enverdecem na época das chuvas, como a menina feia que se sentava no banco das mais atrasadas se metamorfoseia na escritora Cora Coralina. Assim, a autora opera uma ressignificação de sua cidade, conferindo valor ao de menos valia e retirando daí a força de sua estética. Com isso, restitui uma dignidade à cidade cujos habitantes ressentiam a perda de sua identidade como capital do estado.

À medida em que a poetisa vai ganhando projeção nacional, recebe em sua casa personalidades, escritores conhecidos e ganha espaço na mídia, ela projeta junto a cidade em que nasceu, escreveu boa parte de sua obra, amou e tanto recriou literariamente.

Com a morte da poetisa, foi criado, em 1989, o Museu Casa de Cora Coralina, um local incontornável para quem visita Goiás. O museu exerce hoje um papel muito importante não apenas no agenciamento e manutenção da memória da escritora, como também na sua divulgação. Além disso, Goiás recebeu, em 2001, o título de Patrimônio Histórico da Humanidade. No dossiê de tombamento, a imagem de Cora Coralina, seus textos em verso e prosa, são usados para descrever a antiga capital. Nele, Cora é tomada como símbolo de Goiás, como um de seus elementos mais importantes. A poetisa que se reconheceu na sua cidade, nela buscou sua poética e a cantou amorosamente, dignificando-a literariamente, foi convertida na própria cidade. Salve engano, não há no Brasil um caso tão emblemático de identificação entre autor, obra e cidade.

Agradeço a Antolinda Baía Borges e, sobretudo, a Marlene Velasco, diretora do Museu Casa de Cora Coralina, as fotos cedidas para esta publicação. Agradeço ainda ao monitor da casa de Cora, Thiago Ferreira Mota, que gentilmente localizou as fotos no acervo do Museu.